Sobre clubes de leitura e a (não) passividade

O clube de leituras Leia Mulheres tem me ensinado muito. Claro, o óbvio é que me fez procurar mais mulheres, de mais contextos, e ampliar meu horizonte no que diz respeito à literatura. Mas há algo que venho notando já há tempos sobre clubes de leitura como um todo: a importância destes espaços para ressaltar a leitura como atividade, como ação.

Já se repetiram várias vezes episódios nos quais temos que explicar às pessoas por email ou comentários na divulgação dos eventos do clube no Facebook que não estamos promovendo palestras. Porque destacamos a escritora no título do evento, não é incomum acharem que a própria estará presente para falar. Já recebemos reclamações quanto à “composição da mesa”, numa referência à mediação (atualmente trocamos por “organizadoras”). Hoje já faz parte da descrição básica de todos os eventos divulgados ressaltar que não há mesa redonda, convidados nem autoras. Pontuamos que se trata de um clube de leitura, mas fiquei surpresa ao perceber que era preciso explicar o que é um clube de leitura.

Quando comecei o blog, depois o canal no Youtube, meu desejo era conversar sobre livros. Entendo que conversa significa ouvir e falar, é um diálogo engajado, no qual as partes estão de fato escutando o que o outro tem a dizer e se pronunciando sobre aquilo. Trocar ideias, pensar junto. Fazer isso na internet era a novidade, permitindo a conexão com pessoas para além do nosso círculo imediato (até porque um grande número de pessoas que conheci pela internet falando sobre leituras relata ter encontrado nas redes sociais o lugar para isso, e que o entorno da “vida real” não dá muito espaço para esse tópico). Mas clubes de leitura, desses de pessoas se encontrarem fisicamente e falarem sobre um livro… Bem, isso já existe há muito tempo.

Estava de certa forma preparada para responder aos questionamentos de por que ler mulheres, mas o profundo problema que não raro aparece quanto à natureza de um clube de leituras é revelador. Tendo a entender disso que as pessoas não saem de casa para atender a um evento que só existe e é possível por causa da participação delas mesmas. Estamos acostumados a ir ouvir alguém falar sobre algo. Quando temos nós mesmos algo a dizer, jogamos na internet (do que pode resultar um diálogo ou não) e pronto. O problema deste formato é que um fala e a reação costuma ser de adesão à ideia ou rechaço da mesma. Não estou dizendo que é só isso que acontece e que as pessoas não pensam sobre aquilo que leem online nas timelines de amigos ou ouvem em palestras. É só que o próprio formato não pressupõe participação.

Ao contrário, o clube de leituras só é possível quando as pessoas reunidas estão dispostas a engajar-se em um diálogo. No que pese eu também ter plena ciência de que há pessoas que não soltam uma palavra durante o encontro e que algumas só querem ser ouvidas, no geral a base desse tipo de evento é que haverá conversa e que esta conversa não tem atores ou papéis definidos. O clube é esta reunião livre de pessoas.

Particularmente eu gosto ainda mais do presencial porque há uma descontração e um olhar nos olhos do seu interlocutor que deixa o debate muito mais amigável. Saímos dessa de “ganhar uma discussão” e estamos ali por uma hora e meia, duas horas, comprometidos com o outro. É um exercício mesmo para isso que tem se mostrado tão difícil, que é esse real diálogo no qual um não convence o outro, mas pensa junto. Meu olhar sobre determinadas leituras já mudou muitas vezes após os encontros, embora isso não signifique que eu tenha simplesmente substituído minha interpretação pela de outra pessoa, mas sim que tenha repensado, reelaborado e criado alguma outra coisa.

Muitas vezes já pediram que lêssemos mais um gênero ou outro, um contexto de autora específico… Com um encontro por mês, podemos apenas tentar. O que tenho feito é reforçar: é preciso ter mais clubes de leituras. Estes são espaços de participação, de reflexão conjunta sobre um texto. Não significa chegar a um consenso, mas abrir espaço para o diálogo embasado, um exercício muito necessário em tempos de intolerância.

Séries: Episódio 2 | Home Fires

Seguindo os posts sobre séries e mini-séries, resolvi sair daquele esquema por canais de TV porque simplesmente não fazia sentido aquela divisão. Aqui falarei de uma série que é veiculada por outro canal, o ITV, que segundo minha experiência tende a produzir coisas mais palatáveis – mais novelão dramático mesmo. Por exemplo: Downton AbbeyMr. Selfridge. O canal atualmente está lançando episódios da série Victoria, sobre, claro, a Rainha Vitória. Ainda não assisti porque se tem uma coisa que eu detesto é essa fascinação com a família real, especialmente essa exaltação a uma rainha que representou um período negro para o resto do mundo (o mesmo vale para The Crown, da Netflix). Mas enfim, vamos falar desta série que é demais: Home Fires.


Home Fires
(2015 – ?) / 2 temporadas

Home Fires, ITV

Passada em uma vila inglesa durante a Segunda Guerra Mundial, o legal desta série é o fato de ela acompanhar uma associação de mulheres. Existem brigas internas e atos de solidariedade, um certo foco em histórias de mulheres um pouco mais velhas, já casadas, e que sai daquela história do casal 20. Tem gente jovem também, mas gosto particularmente do fato de existirem personagens mulheres relevantes, com histórias densas e multifacetadas, e que estão na faixa ali dos 40 pra cima.

É uma série surpreendentemente leve para o tipo de assunto que trata, e acho que parte disso se deve ao fato de que se concentra nas ações do cotidiano. Já falei sobre isso aqui no blog e na extinta newsletter, ando me sentindo tão pequena no meio de uma conjuntura gigante que tem vida própria sem mim e apesar das minhas vontades, que histórias que apresentam os pequenos atos de resistência do dia-a-dia me são muito queridas. 

Além disso, acho que ela fornece elementos muito interessantes para discussões sobre feminismo. As histórias e as particularidades de situações somente vividas por mulheres se desenrolam de maneira muito orgânica com a trama da série, sem parecer panfletário ou com claras intenções (como achei que foi o caso do filme Belle, sobre o qual falei aqui). Amei a série e fiquei triste quando terminei de assistir tudo, especialmente quando fiquei sabendo que ela havia sido cancelada.

Contudo, mesmo com o cancelamento, o que significa um fim abrupto da série, sem um real fechamento, eu acho que vale muito a pena assistir. Claro, é necessário um olhar crítico para tudo o que enaltece uma história nacional (pela minha experiência, essas séries de época inglesas inevitavelmente caem no reforço de um englishness) – Home Fires se esforça para mostrar uma linda paisagem inglesa e ressalta a participação dos pequenos atores para uma narrativa de resistência britânica, nacional, contra os malvados alemães. Neste sentido, no macro a série não consegue se desvencilhar do lugar comum, retratando a si mesmos, ingleses e o Império Britânico, como mocinhos sofredores e salvadores. Contudo, o olhar para personagens tão incomuns fornecem elementos muito interessantes para pensar para além da narrativa dos grandes acontecimentos políticos.

 

Retrospectiva 2016: reflexões

O ano que passou foi um dos períodos mais transformadores da minha vida. Diferente do primeiro ano da universidade, quando parece que eu sentia as mudanças em mim mesma quase que na pele, no corpo; ou ainda dos anos que fui morar em outro país, descobrindo tanto do mundo; 2016 foi um ano de alterações introspectivas.

Claro, tivemos grandes acontecimentos políticos, marcos na história. E no âmbito pessoal e íntimo, estes eventos também se fizeram sentir. Neste último ano experimentei muitas sensações e mais do que nunca estive solitária, aprendendo a entender a solidão sem juízo de valor: ela apenas é, existe.

Não sei se penso sobre solidão porque li alguns livros, ou se li estes livros porque ando pensando em solidão (acho que as duas coisas), mas algumas leituras aparecem que muito me ajudaram em 2016 a refletir mais profundamente sobre ócio, solidão e o momentos introspectivos para pensar:

Esta atenção à necessidade do tempo para pensar, para digerir, para significar, me fez também repensar minha relação com as leituras e redes sociais. Desencanei do canal e, mais importante, deletei meus perfis no Goodreads e Skoob, pois em mim incentivavam uma atenção aos números ao falar de leitura: estabelecimento de metas quantitativas e a pavorosa classificação dos livros no limitado mundo das 5 estrelas. Para mim se tornaram prisões e faziam da leitura alguma outra coisa que eu não queria que fosse.

Decidi que tentaria falar somente quando tivesse algo para falar (ando treinando porque tendo ao tagarelismo). Esta é uma resolução para a vida, mas tento fazer o mesmo com o mundo dos livros: escrevo textos aqui para o blog quando acho que o que eu quero falar é algo relevante, quando há algo que quero alardear sobre aquele livro ou autor. De resto, deixo pra lá.

Ao mesmo tempo, passei a querer elaborar melhor o que penso e acho que faço isso melhor escrevendo. Neste sentido, abandonar o canal no YouTube e ficar somente com o blog, escrito, foi um movimento natural – não planejei nem justifiquei mentalmente, mas olhando para trás, fez todo o sentido que isso acontecesse e que eu fincasse meus pés por aqui mesmo. A escrita, aliás, entrou um pouco mais na minha vida porque também sem pensar comecei a escrever diário, algo que fazia muito, muito esporadicamente. Hoje escrever qualquer coisa por ali já é mais comum, embora eu quisesse escrever ainda mais. Me faz bem, me traz um momento de elaboração com as palavras que entra de modo mais corriqueiro na vida. Penso que é um exercício de criação, embora eu não escreva ficção.

E totalmente fora do âmbito das palavras, mas na linha da criação, neste ano me engajei em atividades diferentes: fiz uma aula de desenho e me rendi ao antigo desejo de costurar. Se o desenho não rendeu, a costura tem sido uma atividade libertadora: fazer algo com as mãos, criar um objeto a partir de outros, sentar por algumas horas e ver ao final um resultado palpável dos esforços.

Meu mundo que tanto gira em torno de textos às vezes é ingrato: ler não é uma atividade cumulativa, ao terminar um livro a gente não conquista uma nova habilidade. A gente pensa e repensa. Meus fazeres se resumem muito a ler e, quando passo à parte produtiva, escrever. E construir um texto tampouco é linear, meu produto final nunca é final mesmo. A costura como que entrou para entender que há outras realidades no mundo e em mim. Mas divago muito já.

Enfim, talvez criando agora uma narrativa do meu ano de 2016, posso dizer que este foi um ano reflexivo, no qual entendi que preciso agir (escrevendo, criando) e que a ação é pequena, localizada, mas constante. (Para esta ideia, que é também uma ideia de resistência, Outros cantos, da Maria Valéria Rezende, contribuiu muito.)

Foi o ano que fiz 30.

Retrospectiva 2016: os melhores livros

Embora eu não acredite muito em recomeços no sentido de um restart, um começar do zero, é inevitável e benéfico parar de vez em quando para refletir sobre um período que vivemos. E assim olho para a paisagem de livros concluídos em 2016. Outro post mais reflexivo ainda virá, mas por enquanto fico com a inevitável lista de melhores leituras do ano. Não defini um número, um top 5 ou top 10. Apenas olhei para os títulos e selecionei aqueles que de fato foram muito contundentes, que foram marcos no ano e na vida, que mais do que bons livros (e estão de fora desta lista vários livros que recomendo muito, de coração), foram para mim fundamentais.

Em ordem de leitura, segue:

24/7 Capitalismo tardio e os fins do sono
Jonathan Crary
Cosac Naify
2015

Um livro pungente, um ensaio prolongado sobre os efeitos profundos do capitalismo. Jonathan Crary abre falando sobre pesquisas realizadas com verba governamental norte-americana que visam reduzir o tempo de sono de humanos. O objetivo, a princípio, é criar um soldado capaz de estar alerta por até uma semana sem dormir, reduzindo o tempo de vulnerabilidade ao eliminar o descanso. A partir daí, Crary discorre sobre o estarmos ocupados, consumindo, o tempo todo, e da redução do nosso tempo de ócio, o tempo da reflexão, da significação da nossa vida e nossos atos. Acredito que esta reflexão, que busca em Benjamin esta preocupação com o ócio, foi um anúncio de muito o que seria minha preocupação em 2016, quando me interessei em ler também sobre a caminhada como momento para a reflexão (Wanderlust, Rebecca Solnit; alguns ensaios da Virginia Woolf; ensaio do próprio Walter Benjamin sobre o flâneur em Baudelaire e a modernidade).

Quarto de despejo: diário de uma favelada
Carolina Maria de Jesus
Ática
1960 (1ª edição)

Sobre este escrevi texto aqui no blog, inclusive relacionando com um capítulo do Comunidade do Bauman. Sigo firme acreditando que este livro deveria ser referência, que na vida escolar este livro deveria ser trabalhado pelo menos uma vez, que se tornasse destes grandes clássicos, destes pilares da formação de cada cidadão brasileiro. O diário de Carolina, com seus desvios à norma gramatical e com tanta poesia, com seu relato encharcado em críticas, com seu olhar atento e denunciador, é desses livros de linguagem acessível porém extremamente profunda ao mesmo tempo. Não poderia haver formato melhor do que o diário para fazer entender de uma vez por todas a expressão “matar um leão por dia”, para entender a vida de luta diária, a fome diária, dor diária – sem perspectivas de mudança.

Vozes de Tchernóbil
Svetlana Aleksiévitch
Companhia das Letras
2016
383 p.

Hoje, passado um tempo, fico pensando nesta seleção de relatos postos juntos por Aleksiévitch. Há acusações de propaganda anticomunista, e pode ser que assim seja, mas para mim estas vozes falam sobre mundos e certezas destruídas, sobre o fim de um sistema aparentemente forte, e que deixou tanta gente órfã de identidade. Em determinado momento um homem diz que, perante à queda da URSS, pelo menos eles passaram a ter alguma identidade: homem de Tchernóbil. Para mim, estas vozes que falam sobre uma realidade local dizem muito do mundo, falar sobre aquele contexto de socialismo e sua queda é dizer também do capitalismo. Estas vozes falam sobre militarismo, sobre bipolarização do mundo, sobre ciência e respeito e cuidado com o ambiente, com a natureza. Estas vozes me disseram sobre tentar elaborar, tentar significar o inenarrável. Texto aqui.

O casaco de Marx
Peter Stallybrass
Autêntica
2008 / 2016
112 p.

Três ensaios e uma reflexão sobre nossa relação com o mundo material. Às vezes, ou muitas vezes, achamos que temos uma essência e que esta estaria separada do mundo físico, até do nosso próprio físico. Stallybrass discorre sobre nossa relação com as coisas recorrendo a um arsenal teórico (sendo ele mesmo um acadêmico) ao mesmo tempo em que carrega seu texto de emoção, isso que normalmente deve ser deixado de fora do mundo científico. Um livro que me fez pensar muito sobre nossa existência com os objetos, sobre as marcas que imprimimos no mundo e seus significados. Texto aqui.

Stoner
John Williams
Rádio Londres
2015
314 páginas

Olha, olha… Que livraço. Tímido, às vezes até seco e frio, este livro não parece muita coisa a princípio. As primeiras palavras já revelam todos os fatos – fatos desinteressantes, comuns demais. E daí sai uma narrativa que parece ser como o próprio personagem William Stoner: calma, paciente e com algo de resistência. Ler sobre uma vida comum parece revelar que nenhuma vida é insignificante, que no ordinário e medíocre encontramos o extraordinário, pequenos grandes feitos e tragédias. Timidamente, Stoner reflete sobre fracasso e solidão de modo sublime. Butcher’s Crossing já entrou na minha lista de leituras para 2017. Texto aqui.

A tree grows in Brooklyn
Betty Smith
Harper Perennial
1942 (1ª edição)
493 p.

Quando estava lendo, cheguei a dizer que se trataria do “irmão americano de Quarto de despejo“. Talvez esteja mais para primo, é verdade, visto que existem diferenças fundamentais. Mas de qualquer maneira, trata-se de um livro que se apoia na narrativa da vida pobre no Brooklyn da virada do século (início do século XX). Pelo ponto de vista de uma criança que cresce ao longo do livro, acompanhamos a história de uma família, desde que os avós migraram da Áustria e Irlanda para a terra das oportunidades. A tree grows in Brooklyn, eu diria, consegue escapar de definições no estilo “otimista ou pessimista”: há mudanças, há melhoras, mas lentas, que uma vida apenas custa a enxergar. Este livro me tocou profundamente porque me vi, ou vi pessoas próximas, ou vi relações que são minhas retratas ali. Extremamente tocante. Uma pena nunca ter sido traduzido para o português. Texto aqui.

EDIT:

Orgulho e preconceito
Jane Austen
Penguin Clothbound Classics
1813 (1ª edição)

Estava esquecendo justo este clássico! A princípio tinha certeza de que se tratava de uma releitura, mas ao ler tanta coisa me parecia inédita que já não estou certa de que li este livro antes. O que é um indicativo do que é o clássico: esta familiaridade, esta proximidade com a história e seus personagens. E ainda assim, tanta novidade e prazer a cada leitura. Porque Orgulho e preconceito é certamente destes que podem ser relidos à exaustão, sem nunca cair no monótono.

A pobreza na terra das oportunidades: “A tree grows in Brooklyn” | Betty Smith

Em uma passagem do livro, a jovem Francie Nolan leva uma bronca da professora: as histórias que ela tem escrito são muito sombrias, têm que ser bonitas. Um bom escritor, a professora de inglês diz, escreve sobre a beleza. Francie cria então uma cena na qual a protagonista, vivendo em luxo esplêndido, desdenha de um jantar que a faz salivar. Ela se desfaz deste texto: o trecho sobre comida abundante denuncia na verdade sobre sua própria fome, e uma boa escritora, Francie afirma, tem que saber mentir bem.


Dentre os comentários que já ouvi sobre A tree grows in Brooklyn (1942), o mais preciso e que está no prefácio de Anna Quindlen é: nada acontece, mas ao mesmo tempo tudo acontece. O livro é baseado na vida da própria autora, Betty Smith, que cresceu no Brooklyn, Nova Iorque, nas primeiras décadas do século XX.

Se hoje nossa ideia de Nova Iorque (qualquer região da cidade que seja) é de algo grandioso, e se os Estados Unidos se apresentam como a terra da oportunidade e da liberdade, o lugar que se vai para ser o que se quiser, para realizar sonhos, enriquecer, vemos neste livro uma outra – e dura – realidade. Os personagens de A tree grows in Brooklyn passam fome, frio, muita humilhação, enganos. O Brooklyn, dominado por imigrantes (da Irlanda, Alemanha, Áustria, Polônia, Itália e outras partes), às vezes parece isolado de tudo, apesar de estar do lado de Manhattan e de ser Nova Iorque, este centro mundial.

A tree grows in Brooklyn, de Betty Smith

O particular desse livro me parece a denúncia incisiva sobre a pobreza como um problema social, como algo que está além do alcance da vontade pessoal do indivíduo, com a autora sempre apontando a desigualdade de condições. Esta ideia de certa forma põe em perspectiva a noção dos Estados Unidos como a terra das oportunidades, o lugar para o qual todas aquelas pessoas que constituíam o Brooklyn migraram para melhorar de vida.

O interessante é que saímos da leitura com algum senso de que sim, é possível melhorar de vida, e que, dadas as circunstâncias do “velho mundo” que os imigrantes deixaram, a América era mesmo essa esperança e possibilidade de uma vida sem amarras sociais. Um lugar para recomeçar, onde os estratos sociais não são definidos por nascimento – muito embora o dinheiro, oportunidade e educação pesem muito, e as oportunidades não sejam o céu que se prometia.Betty Smith (1896-1972)

Me parece que esse equilíbrio muito plausível entre o que é percebido como sofrimento e as boas memórias é o que faz o livro tão contundente. E isso retoma o trecho inicial deste texto, sobre saber mentir bem. No livro Francie entende que o escritor mente, mas eu acho que poderia trocar aqui esta palavra por inventar. Sabe-se que A tree grows in Brooklyn é baseado nas memórias da infância da própria Betty Smith, mas é preciso lembrar que não se trata de um livro de memórias. E mesmo assim os personagens, as relações, os desejos, aspirações, e as dificuldades e renúncias são plausíveis, possíveis – enfim, é crível. É provável, pelo sucesso do livro, que muita gente se identifique com alguma situação. Eu sei que no meu caso foi profundamente tocante, e reconheci algumas pessoas e relações ali. E livros que se enraizam tanto nas próprias experiências costumam garantir um lugar entre os mais íntimos no coração.


Título: A tree grows in Brooklyn
Autora: Betty Smith
Ano de publicação:  1942
Editora: Harper Perennial
493 páginas

Pertencer: “A convidada do casamento” | Carson McCullers

O título original em inglês deste livro indica muito mais as questões postas nesta obra da Carson McCullers: The member of the wedding (1946) aponta para ser parte, elemento, integrante do evento – no caso, o evento do casamento.

A convidada do casamento, Carson McCullers (The memeber of the wedding)

Acompanhamos Frankie, uma pré-adolescente em uma cidade pequena do sul dos Estados Unidos, que mora apenas com seu pai. Ele, no entanto, praticamente não aparece: na vida de Frankie parece haver apenas a a cozinheira negra Berenice e seu primo pequeno, John Henry West. Um dia, no meio das férias de verão, seu irmão que mora em outra cidade aparece com a noiva que ninguém conhecia anunciando o casamento.

Dentre os vários tópicos que A convidada do casamento pode trazer a discussão (crescer, o fim da infância, a cidade pequena, o racismo, o momento e local históricos, a condição da mulher), eu fiquei pensando bastante no título. Em diversos momentos Frankie fala sobre clubes dos quais ela queria ou poderia fazer parte. Da turma que ela já teve, mas a qual não pertence mais.

Não pertencer, mas querer pertencer. E mais ainda: compartilhar experiências, emoções, sentimentos com outros – dividir algo com outras pessoas para saber que estamos aqui, que estamos no mundo e que somos reais. Tenho pensado em questões parecidas ultimamente. A gente chega inevitavelmente em um ponto da vida a partir do qual fica cada vez mais difícil encontrar pessoas com as quais temos alguma coisa em comum: passamos da escola, da universidade, dos empregos onde a maioria está na mesma fase… Entramos (eu pelo menos) eventualmente em um momento funil, cada um voltando-se para seus próprios interesses e questões pessoais. Um momento de percepção e realização da solidão, talvez porque vamos nos dando conta cada vez mais (ou menos? Não sei) do que somos, do que queremos ou não… Mas persiste a vontade de compartilhar, parece, para existir.

Carson McCullers

Se normalmente vemos personagens que se destacam da multidão, e se geralmente nós mesmos parecemos buscar aquele elemento que nos distingue do resto, que nos torna especiais, o que McCullers enfatiza aqui é justamente essa necessidade de ter algo em comum com os outros – mas mantendo a individualidade. Difícil.

Este foi meu primeiro contato com a Carson e gostei bastante, embora este seja dos livros que vão crescendo após a leitura. Fiquei pensando na Frankie, em querer que as pessoas entendam algo profundo de nós mesmos que nem a gente sabe o que é. A sensação de um mundo que passa rápido, mas com uma insuportável sensação de monotonia.


Título: A convidada do casamento
Autora: Carson McCullers
Ano de publicação:  2008 (original de 1946)
Editora: Novo Século
231 páginas

Séries: Episódio 1

Estava conversando com a Duda, do Maquiada na Livraria, trocando umas dicas de séries inglesas que a gente curte bastante, e decidi começar por aqui uma série de posts sem data para terminar e nem roteiro pré-definido. Queria falar de séries e mini-séries, saindo um pouco do esquema hollywoodiano. Ando curtindo especialmente as séries do Reino Unido. A verdade é que os ingleses conseguiram com muito sucesso espalhar seus tentáculos pelo mundo todo através de um imperialismo cultural. Admito que funciona perfeitamente comigo: adoro os clássicos ingleses, as paisagens, as roupas, as falas, os chás… E acho também que especialmente a BBC tem produções muito boas, notadamente sempre sobre eles mesmos (claro), mas boas. 

Neste primeiro post falarei sobre séries que assisti recentemente e que acredito valerem uma indicação.


Bletchley Circle
(2012 – 2014) / 2 temporadas

Bletchley Circle, BBC

Passado alguns anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, esta série infelizmente tão curta acompanha um grupo de mulheres que atuou decifrando códigos durante a guerra. São mulheres altamente qualificadas, mas proibidas de falar sobre seu trabalho para o governo. Elas voltam a se encontrar quando começam a tentar desvendar um caso de serial killer, tentando encontrar padrões nos casos para conseguir capturar o assassino. É uma série muito interessante, que fala sobre a condição da mulher naquele momento, além de ser uma série de investigação – que eu curto.

 


Call the midwife
(2012 – ?) / 5 temporadas

Call the Midwife, BBC

Sobre esta série eu já falei aqui. Ela foi baseada na série de livros das memórias de uma enfermeira parteira em uma parte pobre de Londres nos anos 1950/60. Até li o livro na época que comecei a assistir. É uma série dramática, mas também engraçada, que conta a história de um grupo de parteiras que atua junto a um convento – e as freiras também são parteiras. Uma série também principalmente sobre mulheres, políticas públicas e tratamento médico humanizado. Ainda não terminei de assistir, vou e volto sempre, mesmo porque aparecem muitas coisas no meio do caminho e esta é uma série longa, com muitos episódios por temporada. Está na Netflix!


Luther
(2010-2015) / 4 temporadas

Luther, BBC

Para não acharem que sou só derretimentos, indico Luther, uma série de detetive que é tensa e onde as tragédias acontecem: a polícia chega tarde, não consegue salvar a vítima, e o assassino pode até ser preso, mas o mal está feito e não vai ter final feliz. Passada na Londres atual (2010 é recente, tá, apesar do celular com teclas e tudo que eles usam), seguimos um detetive de métodos violentos e com a vida pessoal meio quebrada. É interessante, aliás, falar em “vida pessoal” neste caso. Uma das coisas que mais gostei da série foi o fato de não existir uma separação tão marcada entre profissão e o resto: acho que somos assim mesmo, apesar dos discursos motivacionais que pregam o contrário. O detetive John Luther se envolve profundamente em cada caso, e os casos não têm um ponto final definitivo, mas se arrastam.

Todas as temporadas estão no Netflix e a série pode ser vista mais rapidamente do que se pensa. Apesar de serem 4 temporadas, cada uma delas é bem curta e no total são apenas 17 episódios.

A solidão da vida: “Stoner” | John Williams

Tenho tido sorte com os livros que tenho escolhido nos últimos tempos. Eles parecem chegar em momentos particulares, eu diria que praticamente exatos. Stoner fez muito sucesso há um anos atrás, assim que foi lançado no Brasil, e eu acho que eu também teria gostado muito dele na época – mas agora foi justamente o que eu precisava.

Ando pensando muito. Em uma variedade de coisas, algumas mais e outras menos, mas pensando muito. Isso tem a ver com acontecimentos na minha vida pessoal no último ano, que vieram seguidos de alguns questionamentos sobre vida (e morte), com um turbilhão político que me afeta muito emocionalmente, e ao mesmo tempo em que também procuro desacelerar e refletir mais e mais profundamente. E com isso veio uma certa solidão – que não vou classificar como boa nem ruim, simplesmente solidão, isto de estar só e de pensar sobre coisas que são difíceis de conversar com outros porque são muito íntimas.

E aí veio William Stoner. Este personagem que acompanhamos desde que sai da vida rural e pobre no Missouri do começo do XX, até sua vida e morte na universidade. Ali ele entra como um meio de adquirir conhecimento prático para realizar o trabalho de sempre, mas no meio do caminho se apaixona: pela literatura e pela universidade. Vemos Stoner trocar o curso de agronomia, no qual havia ingressado por desejo do pai para continuar cuidando da fazenda (modestíssima) da família, e passar para a literatura. Ele segue seus estudos e se torna professor do departamento.

Embora muitas pessoas tenham descrito Stoner como um homem médio, de vida média, eu acho que penso mais nele como alguém esquecível e esquecido, assim como a esmagadora maioria de todos nós somos e seremos. Essa mediocridade parece ir revelando momentos ou feitos que, naquele contexto, naquele recorte específico do universo da vida de Stoner, se tornam extraordinários.

Stoner, de John Williams (Rádio Londres)

Existe uma solidão (e a expressão da imagem da capa do livro me pareceu captar isso lindamente) que permeia toda essa vida, uma aparente secura na manifestação das relações. Mas de alguma forma os laços se estabelecem e se mantêm, reforçados de outras maneiras, mesmo que pelo ressentimento. Acho que por isso este livro foi tão pontual quanto ao  meu momento particular, porque me ajudou a pensar a solidão de outras formas. Em um contexto no qual prezamos tanto pela conectividade (ainda que seja marcando nossa presença e felicidade pelo contato expresso em número de amigos/seguidores e curtidas), essa solidão de William Stoner, que em uma passagem linda sai de seu próprio corpo para se ver no silêncio da universidade vazia, trouxe novas possibilidades de entendimento quanto a estar só.

Eu poderia falar de outros aspectos deste livro, como essa relação linda com a universidade (eu mesma estava dizendo hoje o quanto eu amo a universidade, me sinto em casa), ou quanto a fazer as coisas sem esperar o sucesso na forma de reconhecimento ou fama, mas porque é aquilo que se faz e não poderia ser outra coisa. Stoner é um livro muito bonito e um personagem que parece ter ficado no meu corpo em forma de nó na garganta: um sentimento forte de não sei bem o que.


Título: Stoner
Autor: John Williams
Ano de publicação: 2015
Editora: Rádio Londres
314 páginas

Os significados do ato de caminhar: “Wanderlust” | Rebecca Solnit

Existem coisas tão óbvias nas nossas vidas que raramente, ou mesmo nunca, pensamos sobre elas. Por que fazemos o que fazemos como fazemos. A frase e a ideia parecem idiotas, mas quando nos arriscamos deter um tempo a mais em um tópico, uma série de pensamentos começam a aparecer e tomar forma – ou deformar as coisas. É como quando falamos uma palavra comum várias vezes seguidas e começamos a nos deter em cada som, cada gesto corporal que fazemos com nossa língua e boca, e como isso se transforma em sons… Para mim ler Wanderlust: a history of walking, da Rebecca Solnit, foi assim.Wanderlust, de Rebecca Solnit

É verdade que em aulas de antropologia a gente tem isso, mas a verdade é que eu nunca tive aula de antropologia e só cheguei a textos de forma indireta, para outras disciplinas. Mas pra quem já viu alguma coisa disso, não é incomum a ideia de lançar um olhar profundo àquilo que está extremamente consolidado em nosso mundo. Mesmo assim, mesmo para quem não é estranho a este tipo de reflexão, o livro de Rebecca Solnit é interessante porque passeia por diversos contextos do ato de caminhar, levando a reflexões interessantes.

A autora elege como ponto de partida o século XVIII, entendendo que ali surge uma ideia do caminhar como um ato associado ao pensar e à reflexão; passa também por cientistas preocupados em estabelecer pontos da evolução da espécie humana, tomando como crucial o momento em que a espécie começou a ser bípede (uma parte interessante, aliás, para pensarmos como estudos biológicos de modo algum se dissociam de seu período histórico e, desta forma, estão profundamente ligados ao contexto social); fala ainda das peregrinações religiosas, do andar por longas distâncias para estar em contato de alguma forma com o sobrenatural, com o divino, estabelecendo alguma espécie de laço com os outros fiéis que também se lançam nestas incursões; e umas das minhas partes preferidas, resgata os romances de Jane Austen para discorrer sobre o ambiente em que se dá a caminhada e as ideias de paisagem e natureza que deveriam acompanhar esta atividade.

Todas as reflexões destes capítulos são extremamente interessantes e de alguma forma se interconectam, mas talvez sejam as considerações a respeito da cidade e da mulher as mais incisivas no que toca a como vivemos hoje – ou como eu vivo hoje. As observações sobre o espaço urbano nos levam a pensar como estamos nos relacionando com o mundo: somos o que somos, somos corpo, temos uma existência material, física, que ocupa um lugar no espaço; e temos a capacidade fisiológica de nos movimentar no espaço – mas como a estrutura da cidade, dos espaços (a princípio públicos, mas isto também vai mudando), nos enquadra e nos oferece estas, mas não outras possibilidades de estar e ocupar o público?

No que pese sempre termos entendido o espaço de certa forma e atuado nele de acordo com essa visão (como Solnit discorre no capítulo sobre a paisagem, falando sobre um controle da natureza mesmo quando há a ideia da mesma como o caos ou o selvagem), a autora caminha para uma reflexão acerca do estado atual, quando nos faltam cada vez mais os espaços comuns para estar com outros. Para além disso, nossos espaços de convivência têm se tornado de posse privada: os shoppings. Falando especificamente da minha realidade em Belo Horizonte, já há anos eu e outras pessoas temos observado o crescente domínio dos shoppings e o minguar de parques e praças. As calçadas parecem ser um indicativo crucial: estreitas e irregulares, quando existem ou não estão ocupadas por carros em frente à lojas que oferecem o espaço à sua frente como “estacionamento exclusivo para clientes”.

Rebecca Solnit, que aliás está na raiz do termo “mansplaining“, vai mais a fundo nas significações políticas do caminhar e ocupar o espaço público: resgata o fim do XIX e começo do XX, quando mulheres caminhando sozinhas na rua poderiam ser acusadas e condenadas por “street walking” – andar na rua, literalmente, mas que socialmente assumia o significado de prostituição. Como ela faz questão de apontar, nunca um homem foi acusado de tal crime (sim, crime), o que reforça a ideia de que estar em determinado espaço e se movimentar entre espaços assume um significado político. Aliás, a autora lembra que os magazines e galerias na virada do século forneceram às mulheres um lugar fora de casa no qual era possível estar em público sem estar na rua (e hoje mulheres têm a fama de amar compras…).

Embora Solnit se alongue por uma diversidade de temas, parecendo às vezes escapar à temática do caminhar propriamente dito e passando a falar muito mais dos espaços, me parece que ela traz uma reflexão muito interessante acerca de nossas ações no mundo. Me parece que ainda temos muito forte a ideia de corpo e mente/consciência como coisas separadas, independentes. O que Rebecca Solnit reforça neste livro (e que também é central naquele livrinho que já indiquei aqui, do Peter Stallybrass) é que o mundo material nos informa de como estar no mundo, e que nossos atos têm uma força uma significação.

Ao ler este livro comecei timidamente a caminhar com menos pressa na rua. Às vezes também saio de casa só para dar uma volta. No quarteirão mesmo, andando devagar, sem rumo nem caminho certo pelo bairro. Desacelerar para pensar. Tem sido bom.


Título: Wanderlust: a history of walking
Autora: Rebecca Solnit
Ano de publicação: 2001
Editora: Penguin
336 páginas

Sobre números: deletando Goodreads e Skoob

Há algum tempo já o número vem me incomodando. Não é que eu odeie matemática ou que não saiba fazer conta (o velho clichê – chega). Tampouco se trata de um caso de não gostar de números em si – eu até nutro sentimentos por eles: simpatizo com o 8, acho o 7 um canalha. Meu pai adora o 18, parece que sente que são até compadres: “bom número, esse dezoito”, ele diz. Mas é que parece que tendemos a transformar tudo em número, a reduzir tudo a número. Quantificamos e classificamos. Transformamos características, sentimentos, situações complexas em número, para que assim tudo possa ser planificado e, desta forma, comparado.

Ler tantos livros em tanto tempo, contar as páginas, dar nota. Analisar o gráfico de leituras deste ano. Quantos livros lidos na estante? Quantos não lidos? Livros para ler em um dia, pra quem tá apertado pra cumprir a meta do ano, da maratona.

Eu nem pensava nessas coisas há um tempo atrás. Tirando os livros que li excepcionalmente rápido, não me lembro de quanto tempo levava para concluir uma leitura. Isso simplesmente não era importante. Da mesma forma, nunca tinha expressado minha opinião sobre um livro na forma de classificação, seja nota, estrela, ou qualquer coisa parecida.

Atribuir estrelas, aliás, passou a se tornar um tamanho incômodo para mim nos últimos tempos que decidi recentemente parar de fazer isso. Porque vejam só, não se tratava, para mim, de simplesmente traduzir um sentimento em avaliação quantitativa em redes sociais. Aquelas estrelas passaram a informar a minha leitura. Enquanto lia, pensava nelas: “este é um livro três estrelas ou quatro estrelas? Três, este é um livro três.”. E pronto, o livro estava enquadrado. E só existiam cinco possibilidades, por mais diversas que fossem as leituras.

Os prazos eu sei que afligem mais pessoas ainda. Há algum tempo, antes de decidir parar com o canal (sim, parei mesmo), resolvi que sairia daquele esquema de “leituras do mês”. Às vezes eu concluo um livro apenas, ou nenhum, e fazer um vídeo mensal se tornava praticamente opressor. Custei a admitir pra mim mesma, mas inconscientemente eu estava escolhendo livros mais fáceis ou menores para dar volume. A vida é inconstante, eu sou inconstante, e há ocasiões em que não quero ler, quero fazer outra coisa, ou não consigo ler, não consigo me concentrar.

Foi bom enquanto durou. Para muita gente essas ferramentas contribuem para incentivar a dedicar mais da vida à leitura. É legal acompanhar o que algumas pessoas estão lendo, mas tenho começado a me sentir sufocada, vigiada às vezes.

Apaguei tudo. Goodreads, Skoob, tudo sumiu (se é que é possível sumir na internet). Foi para o cemitério o registro de todas as leituras que fiz desde 2012, quando me cadastrei nesses sites. Não salvei, não anotei, nada. Vou me permitir o descontrole.