Café, pão de queijo e… Meio Sol Amarelo (Chimamanda Adichie)

Isto não é uma resenha. É só um “textito” no qual eu falo um pouco sobre um livro.

Acho que foi em 2009 que vi aquela famosa TEDTalk da Chimamanda Ngozi Adichie, “O perigo da histórica única”. Achei genial. No entanto, por algum motivo (e também por não estar lendo quase nada de literatura na época) nem pensei em procurá-la como autora. Na verdade, nem pensei no que era que ela fazia. Só que um dia, acho que por causa de um dos vídeos da Denise do Cem anos de literatura, o bichinho da Chimamanda me picou e eu fui correndo encomendar um livro dela no Book Depository – e sim, demorei um ano até finalmente pegar o bendito para ler.

MeioSolAmarelo

Quando peguei “Half of a Yellow Sun” (no Brasil publicado como “Meio Sol Amarelo”, pela Companhia das Letras) esperava por um livro que me confirmasse essa variedade de histórias da qual a tinha ouvido falar – e só. No entanto, foi muito mais do que isso.

Fiquei pensando no quão pouco eu conheço sobre África (e infelizmente não sou exceção). Para início de conversa, temos essa mania de via de regra nos referirmos sempre ao continente e nunca a um país ou etnia específicos, o que já é mostra do nosso desconhecimento em relação à política nos diferentes países, heranças coloniais, processos de independência diversos. Sem falar no que existia lá antes, mas principalmente no que há por lá agora, nos contextos atuais.

Em “Meio Sol Amarelo” temos os pontos de vista de três personagens: Ugwu, um menino de uma vila pobre que vai servir a um professor de uma universidade; Olanna, a mulher filha da classe média e que estudou na Inglaterra, que tem um relacionamento amoroso com o professor; e Richard, um inglês que decide ir para a Nigéria depois de se apaixonar pela arte Igbo-Ukwu e pretende escrever um livro. São três visões muito diversas, que partem de lugares bastante variados.

HalfOfAYellowSunO livro se passa nos anos 1960, antes e durante a guerra pela independência do Biafra. No entanto, “Meio Sol Amarelo” me tocou por ser uma história sobre as vidas dessas pessoas dentro daquela situação, mais do que uma ficção ambientada em contexto real: são experiências humanas, ações e reações chocantes e ao mesmo plausíveis, nas quais é possível nos reconhecermos.

Fiquei pensando nas maneiras como enfrentamos situações de perda. E gostaria de falar aqui de um outro tipo de perda, que é a perda de um ideal. Porque a impressão que me deu ao terminar de ler este livro e pensar sobre as histórias que eu li ali e na África como um todo – como um continente esquecido e maltratado, explorado e humanamente violentado –, o que ficou martelando na minha cabeça foi como a imposição do colonizador se deu, mais do que por uma repressão física, mas pela derrota das ideias. Ficou em mim essa sensação de que o homem derrotado é aquele que não tem mais em que acreditar.

Lembrei de quando estudei sobre a I Guerra Mundial. Os horrores desta guerra, após um século sem conflitos bélicos na Europa, foi chocante para os europeus e para o “mundo civilizado” porque escancarou os horrores que a situação da guerra traz e a capacidade do ser humano de atrocidades das quais ninguém ousa falar. Talvez agora eu tenha finalmente entendido isso um pouco melhor e, ao mesmo tempo, olhar para atos absurdos e indesculpáveis sem juízo de valor, pelo fato mesmo de ser até incapaz de me colocar naquela situação (o que é um ponto importante da história também).

Por fim, gostaria de salientar como a Chimamanda Adichie, a meu ver, conseguiu de maneira delicada e muito bonita dar voz às memórias da Nigéria, traçando uma imagem da sociedade da época que não pretendeu romantizar nem demonizar nenhum lado (embora não deixe de fazer duras críticas). Uma habilidade de criar personagens surpreendentes e dentro do verossímil e uma história comovente, violenta, triste, com seus momentos de leveza e muito, muito bonita.

Título original: Half of a Yellow Sun
Ano de publicação: 2006
Idioma original: Inglês

Título em português: Meio Sol Amarelo
Ano de publicação: 2008
Editora: Companhia das Letras
504 páginas

11 thoughts on “Café, pão de queijo e… Meio Sol Amarelo (Chimamanda Adichie)

  1. Oi, Olivia!
    Acho que você foi certeira: o pior de tudo é a perda da capacidade de acreditar.
    Ainda não li nada da autora, mas comprei “Hibisco Roxo” por causa da Denise. E agora quero ler “Meio Sol Amarelo” também.
    beijo

    1. Ah, pegamos “inspiração” literária da mesma pessoa! Foi o vídeo da Denise, acho que ano passado, que me fez lembrar da Chimamanda e correr atrás dos livros. Pelo que ouço falar, “Hibisco Roxo” deve ser melhor, muita gente boa fala bem demais! =)

  2. Conheci a Chimamanda também pelos vídeos da Denise e fiquei curiosa, mas ainda não conferi nada. Sou uma das que conhecem pouco da África, o que é uma pena, queria conhecer mais… Vou marcar aqui, pra não esquecer! Ótimo texto! 😉

  3. Gostei muito do seu blog. Tenho muita vontade de conhecer logo a escrita dessa autora. Vi também a Juliana do Pintassilgo falar sobre Americanah, mas tudo demora a chegar por essas bandas. Essa resenha me deixou com água na boca por Meio Sol Amarelo.

    Ótimas leituras!

    1. Oi, Flávia!
      Cheguei no canal da Juliana Brina justamente por causa desse vídeo, acredita? Estava quase terminando de ler Meio Sol Amarelo e estava procurando vídeos com a Chimamanda. Estou doida pra ler Hibisco Roxo, vi tantos comentários!
      Obrigada por passar aqui e fico feliz que você tenha gostado. =)

  4. Oi, Olivia, tudo bem?

    Assisti o “O perigo da histórica única” em 2011, mas na época não me interessara em procurar os livros publicados dela, até 2012 quando assisti o vídeo de novo e acabei lendo uma resenha de Hibisco Roxo que me deixou encantada e chateada comigo mesma por não ter dado atenção para ela ‘quando a conheci’.

    Desde o último semestre, comecei a perceber o quão pouco sei sobre os países da África, sobre sua cultura, acho que os que mais sei a respeito são os que têm a língua portuguesa como língua oficial, nesse semestre estou tendo a disciplina de Literatura Africana de expressão portuguesa, mas está sendo uma decepção porque é tudo tão mastigadinho, apostilas e textos da internet e a literatura que é boa… Nada! 🙁

    Esse ano – fim de semestre da faculdade e início da ‘folga’ – quero ler alguns escritores africanos e a Chimamanda está na minha lista, é claro! Finalmente, poderei me redimir, rs.

    Beijos!

    1. Oi, Maura! Então, eu já até comecei uma disciplina de História da África Contemporânea (seculos XIX e XX) uma vez, mas tive que trancar. Se quiser, vejo o que tenho aqui de referência e te passo, a matéria era excelente e as discussões eram muito legais e produtivas. Realmente me ajudou a pensar algumas coisas para as quais até entao nao tinha atentado nunquinha! Mas, claro, falta muita coisa. Estou tentando incorporar mais coisas de fora do “centro”, sabe? Afinal de contas eu cresci com contos de fada e Disney, é preciso ver outras realidades. =) Estou curiosa para saber dos autores que você pretende ler e pegar umas dicas também.
      Besos (e sonhemos com o fim do semestre!)!

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