Qual é o problema dos livros de colorir?

Hoje eu vi o vídeo de uma reportagem da Globonews que foi compartilhado na página do Facebook do Literatortura. (Link aqui) A reportagem de Zeca Camargo dizia que a morte do cantor sertanejo Cristiano Araújo teria tido uma reação desproporcional por parte do público; que sendo o cantor desconhecido (que eu saiba ele é bem famoso, embora não seja pimpado em programas da Globo) a quantidade de pessoas que se comoveu com a morte teria como explicação a “modinha”.

Zeca Camargo falou um monte de coisas questionáveis, mas sendo este um blog sobre livros, me aterei à parte que ele fala sobre os livros de colorir (é com extremo pesar que faço isso, porque poderia falar horas e horas sobre todas as asneiras que foram proferidas em tom de verdade e condescendência nessa reportagem). Ele basicamente detona a onda dos livros para pintar, dizendo que eles destacam “a pobreza da atual alma cultural brasileira”.

Eu gostaria de lembrar ao Zeca Camargo, antes de tudo, que esta moda surgiu no exterior, e que a autora dos livros mais famosos do tipo, Jardim secreto e Floresta encantada, Johanna Basford, é escocesa, tendo publicado seus livros originalmente no Reino Unido. Além disso, dados de março apontam que o número de exemplares de Jardim secreto vendidos até então chegava a 1,5 milhão, dos quais 100 mil haviam sido vendidos no Brasil. Bom, se há um problema de pobreza cultural, certamente não é exclusivo e nem característico do Brasil.

Além disso, tampouco acredito que se trate de uma atividade estéril da maneira como Camargo a apresenta. De fato, o desenho está pronto, mas das linhas pretas no papel branco até a combinação de cores, passando por quais materiais e técnicas usar para atingir texturas e efeito desejados… Bem, deixo a defesa disso para o pessoal das Artes Visuais.

Mas nem são esses os pontos que eu gostaria de atacar. É que desde que surgiram, eu tenho visto muita gente descascando esses livros, basicamente no argumento de que eles estariam substituindo os “livros sem figuras”. Eu discordo. Não acho que há uma substituição, mesmo porque são coisas completamente diferentes que acontecem de estar no mesmo formato – o formato livro. Ao meu ver, trata-se de um novo produto, ou um poduto reciclado.

Falo por mim e pelo que observo: eu mesma e outros que sei serem leitores não deixaram de ler para colorir. Se tornou um outro passatempo, uma maneira de sair da TV e da internet nessas horas de muito cansaço para ler (cansaço mental existe!). Não acho que quem vai à livraria em busca de uma leitura vá trocar as palavras pelas cores – são atividades diferentes.

E numa boa? É no mínimo hipócrita que uma rede de TV que promove programas no mínimo questionáveis (para não dizer emburrecedores), venha falar que colorir é esse problemão todo.

PS: Deixo aqui um vídeo interessante do próprio Literatortura que vi só agora que acabei de escrever o texto. Aliás, lá também foi publicado um texto bem interessante de resposta direta a essa reportagem absurda.

0 thoughts on “Qual é o problema dos livros de colorir?

  1. Não vi a reportagem, Olivia, mas pelo que você comentou aqui já deu para perceber que o Zeca Camargo falou um monte de bobagens mesmo… Sabe qual o ponto de discórdia para mim? Terem classificado como “livros”. Se a classificação fosse de passa-tempo (como as palavras cruzadas) ninguém daria a menor importância.
    Gente que acha que a pessoa tem ser intelectual 24 horas por dia me cansa…

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