Acordei com fogos do golpe e pensando em Zambra

Hoje acordei ao som de fogos. Já sabia, já esperava, mas o golpe final é triste. Dá raiva, cresce um sentimento de revolta e indignação, mas é sobretudo triste, desalentador, escutar pessoas que eu sei que jamais leram ou assistiram algo além da mídia tradicional, gente que mora na casona aqui da frente cheia de carros na garagem, gente que vive de herança, acordar cedo pra soltar fogos de artifício comemorando um golpe.

Enquanto tentava voltar brevemente pra terra dos sonhos, onde a merda é fictícia, lembrei de Formas de voltar para casa, do Alejandro Zambra, e do filme Machuca. Quando li o livro e vi o filme, estávamos longe de acreditar ser possível, num país com a visibilidade e relevância internacional como o Brasil, um golpe. 

MachucaComo eu já disse por aqui, Machuca foi o filme que me fez entender de vez o que significaram as ditaduras na América Latina. E vemos este programa hoje se instalando: o afastamento e eliminação de pobres, negros, indígenas, mulheres – enfim de tudo o que não cabe na lógica de uma política que existe para fazer dinheiro para uns. Uns bem poucos. O programa de antes e que hoje retorna: o privilégio ao invés do direito.

Em Formas… Zambra fala de uma classe média apática. Ao contrário dos tantos relatos sobre os anos de ditadura, que passam uma ideia de pura resistência, vemos a vida corriqueira, o banal, ordinário, a vida tocada de quem não se interessa ou não se dá o trabalho. A escolha (sim, escolha) pela comodidade. Fico com medo de ser assim. Nos últimos tempos fui somente a uma manifestação aqui em Belo Horizonte, envolvida que estou em coisas não-históricas, como provas, trabalho, cansaço físico e mental, preguiça de ter de voltar sozinha pra casa. Tenho medo de eventualmente sentir medo. É verdade que falo: falo muito, com quem dá, com quem não quer ouvir, com quem efetivamente não ouve. Será suficiente? Terá algum efeito – qualquer efeito?

Formas-de-voltar-para-casa, Alejandro Zambra

Acredito não ser como os personagens de Zambra: não estou em uma luta que toma ações diretas contra um regime, mas também não estou escolhendo ignorar, não acho que tanto faz. Me estarrece o “tanto faz”. O perigo do “tanto faz”: a ideia de que se está de fora de um processo, o distanciamento do mundo e do outro, quando o que acontece, de fato, é a concordância com o que está colocado. O que Zambra tão bem pontua é que não existe “estar de fora” e que todo ato tem repercussões na realidade, reforça ou contesta um ponto. 

Hoje vejo gente comemorando. Alguns, eu sei, devem rever suas posições quando os direitos trabalhistas minguarem, quando casa própria for possível só em sorteio do Gugu, e principalmente quando não conseguirem mais trocar de carro. Outros, a classe média alta, os dos 20 mil reais mensais, seguirão rindo, felizes porque a empregada não é mais desaforada.


Levanto. As primeiras notícias são de um ministério composto somente por homens, todos velhos nomes. Gente envolvida em esquemas de corrupção dos mais diversos, jamais investigados – apesar da independência da PF. Todos brancos.

Repito: todos velhos nomes.

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