Como fazer a revolução: “Outros cantos” | Maria Valéria Rezende

Quando fiquei sabendo pela primeira vez da autora Maria Valéria Rezende me veio uma certa empolgação: uma pessoa criticando os temas e os lugares da literatura, tão acostumados a centros urbanos, dilemas existenciais em vidas monótonas de homens, brancos, jornalistas/escritores, classe média, superior completo. A escritora foi ganhadora da última edição do Prêmio Jabuti, em 2015, na categoria de livro de ficção por Quarenta dias. Não li, não sei do que se trata, mas vou querer saber.

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Contudo, comecei com Outros cantos. O livro estava em uma lista de votação para uma edição do Leia Mulheres BH que propunha livros sobre ditaduras, e quando vi que este não se tratava de estudantes, nem jornalistas, em reuniões de de movimentos, mas de uma mulher que se perde em um povoado no sertão nordestino para ensinar jovens e adultos… Corações, corações!

Outros Cantos, de Maria Valéria Rezende

Fiquei pensando muito sobre o assunto, muito mesmo. Escrevi uma newsletter sobre isso (sim, escrevo cartinhas a cada duas semanas, dá pra se inscrever aqui) – ou quase isso. Embora o texto lá da newsletter tenha muito mais a ver com a ideia de ser radical, não deixa de ser sobre o tema de como tomar ações, ou melhor, como transformar ideias em ações.

Retomando o que disse anteriormente, não é que eu não goste de historias de pessoas que se engajaram em algum movimento de resistência a governos autoritários a partir de vivências urbanas, dentro de universidades ou no meio artístico. De forma alguma. Entretanto, vejo muito mais livros, filmes e músicas contando a partir deste tipo de vivência. Contudo, Maria, a personagem que conta a história de Outros cantosenfrenta a ditadura e resiste ao pensamento autoritário e opressor através da educação. Educar é lento, é trabalho para a vida. Em um momento no qual se pensa em termos revolucionários, em uma concepção de revolução pautada na urgência da mudança, na inversão de posições de maneira rápida – que também pode ser traumática -, a educação parece um pouco fora de lugar, na sua demanda por paciência e perseverança. Por outro lado, educar para a vida, neste sentido libertador, provoca alterações profundas na sociedade, na medida em que os sujeitos percebem-se atores no mundo. Se vêem no mundo, se colocam no mundo, se enxergam uns aos outros, a partir das relações que estabelecem. Neste sentido, nada mais poderoso.

Mas é difícil. É longo, demorado e exige esforço contínuo.

Fico pensando, então, em quais ações tomar. Como ser revolucionária? Como tomar parte em ações revolucionárias? Ou então saindo deste termo e reformulando a pergunta: como promover ações transformadoras? Porque sozinha, em um povoado tão isolado, Maria tampouco atinge o sucesso desejado. E como enfrentar, em atos tão pequenos, o medo provocado pela repressão tão dura, física mesmo, o medo da própria eliminação?

Outros cantos me fez pensar nessa atuação quieta e profunda, mas que não pode ser desligada das lutas que tratam de uma estrutura de poder. O front é maior. é largo.


O livro Outros cantos será debatido no encontro do clube de leituras Leia Mulheres BH.

Data: 29/06, quarta-feira, às 19:30
Local: Sesc Palladium – Av. Augusto de Lima, 420. Espaço Multiuso
Evento no Facebook.

Aliás, olha aqui a autora, que simpática, aparecendo lá no Leia Mulheres de João Pessoa!

Maria Valéria Rezende no Leia Mulheres de João Pessoa

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