Estupro: três documentários na Netflix

Nas últimas semanas assisti estes três documentários e vinha querendo falar sobre eles. A situação atual tornou isso uma necessidade. Porque sim, PRECISAMOS FALAR SOBRE ESTUPRO, sobre uma cultura que justifica, incentiva e naturaliza o estupro. Que culpa a vítima, que relativiza o papel do estuprador ou ainda que o vê como um ser doente, uma aberração ao invés da norma.

Nesta semana ficamos sabendo de um dos tantos casos que acontecem todos os dias. Este um caso, contudo, conseguiu superar tudo o que eu achava ser possível. TRINTA E TRÊS homens estupraram uma mulher. E filmaram. E espalharam. E um monte de gente achou engraçado, sentiu prazer ao ver violência. Achou legal porque aquilo era vergonhoso pra mulher. Geralmente as pessoas sentem vergonha quando erram, quando fazem algo que não deveriam e são pegas, são confrontadas. Mas neste caso (e em outros, falarei sobre isso ainda em outra ocasião) quem o mundo imagina que deve sentir vergonha é a mulher que sofreu a violência. PRECISAMOS.FALAR.SOBRE.A.CULTURA.DO.ESTUPRO.

Começo indicando um documentário que fala diretamente sobre esta cultura nos campi das universidades norte-americanas. The hunting ground teve alguma visibilidade por causa da música e performance da Lady Gaga na cerimônia do Oscar (que competia com a canção ‘Til it happens to you), mas aquilo ali tem que ser falado, martelado todos os dias.

The hunting ground

O documentário aborda: i) o fato de que estupros estão acontecendo nos campi; ii) as meninas não sabe como proceder; iii) os conselheiros aos quais elas se dirigem, suas referências na vida universitária, culpam a vítima; iv) nos raros casos em que a denúncia é levada adiante, não há punição e o estuprador continua frequentando a universidade, onde a vítima também está; v) há uma especial proteção a alunos que trazem dinheiro à universidade, notadamente os alunos atletas.

Isso é um resumo muito resumido, mas o documentário de fato se aprofunda no que se propõe, em cada um desses aspectos. São de chocar os relatos das sobreviventes (lindo termo, ao invés de vítima), dizendo como foram perguntadas se tinham bebido, quanto tinham bebido, que roupa usavam, ou o que deram a entender pro cara (OI????). São levadas a acreditar que imaginaram tudo, que não aconteceu. Na polícia, quando o caso chega às autoridades, acontece o mesmo. Simplesmente não se investiga ou, mesmo quando provada a culpa e o crime, não há punição. Não há.

Também assisti ao documentário que tem seus vários problemas e não chega aos pés do anterior, mas que traz uma discussão importante: Hot girls wanted. Este não tem o estupro como seu ponto de discussão, mas inevitavelmente chegamos nisso. O filme aborda parte da indústria pornográfica, especificamente um ramo, o chamado “amador”, que designa jovens que acabam de atingir a maioridade (18 anos) e são iniciantes na indústria.hot-girls-wanted-poster

Impressionam as exigências de que elas devam parecer adolescentes, menores de idade, e atuam sempre cenas de “primeira vez”, não raro com homens muito mais velhos – o que é inclusive ilegal nos EUA. As instruções de atuação também são chocantes. Em uma parte particularmente pesada do filme, escutamos a voz do diretor dizendo à atriz que ela não deve em momento algum esboçar qualquer sinal de consentimento. OLHA.O.PROBLEMA.AQUI.

Sabemos que o pornô objetifica as mulheres, dá pra ver que a mulher ali não está sentindo prazer algum. As atrizes entrevistadas falam sobre isso, ainda que de maneira conformada: estão ali para facilitar o prazer do homem. Indicativo disso é o fato da câmera estar posicionada de acordo com o ponto de vista do homem.

O filme tem suas falhas, parece meio perdido quanto à que crítica exatamente está fazendo à indústria do pornô (creio que é preciso desenvolver argumentos para defender a mensagem que, é claro, o documentário se propõe a passar, que é a de que o pornô é ruim). Procurando na internet vi algumas situações nas quais o filme provocou uma defesa da produção de pornô tal qual existe hoje e é apresentada, o que é problemático. De fato, nas falas das atrizes percebemos que elas não acham aquilo necessariamente ruim, mas muitas vezes estão justificando suas situações. É problemático que essas falas não tenham sido mais exploradas.

Por fim, não posso deixar de falar no documentário maravilhoso sobre os movimentos feministas nos EUA nas décadas de 1960 e 70: She’s beautiful when she’s angry. Vemos as diversas pautas dos movimentos, especialmente porque há uma diversidade enorme quanto ao que é ser mulher, como cada mulher experiencia essa condição. A luta, que começa travada por mulheres brancas de classe média, logo vê suas contradições internas, passando a abrir espaço para o feminismo negro, homossexual e a discussão de classes.DVD-Insert_template

Para mim, foi ponto alto do filme o momento no qual é discutido o aborto, pauta central do feminismo. Nos EUA hoje o aborto é legalizado em diversos estados, mas naquele momento a realidade era outra e mulheres se organizaram para criar uma rede de apoio e possibilitar o procedimento. Desafiaram a lei, poderiam ter sido presas – e tinham consciência disso.

Incluo este documentário numa lista que vem num momento de discussão sobre o estupro porque esse debate é travado pelo feminismo, é para isso que o feminismo existe e é desse tipo de violência que ele fala – há décadas já.


Eu ainda não sei o que podemos fazer. Mas pelo menos precisamos falar. Falar muito, o tempo todo. Façam Leia Mulheres, façam cineclubes, levem a discussão para as escolas, para a família conservadora, para as igrejas, qualquer comunidade que vocês façam parte.

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