São Bernardo | Graciliano Ramos

Ultimamente tenho tido a sorte, a grande e enorme sorte, de ler coisas que conversam entre si e com situações atuais. Claro, sei que isso é questão de percepção, que de repente algo que parecia invisível começa a aparecer em tudo quanto é lugar, mas de qualquer maneira são leituras que têm provocado muito. Foi assim com São Bernardo.

O livro é narrado em primeira pessoa e conta a história de parte da vida de Paulo Honório, um homem que cometeu um crime, cumpriu pena e ao sair da prisão foi galgando classes na esperteza e na criminalidade, até conseguir a propriedade São Bernardo, no sertão alagoano. Temporalmente, a história se passa nos anos 1930, mas sua atualidade é aterradora, tanto porque toca em pontos que dizem respeito ao caráter humano, ao nível mais individual, quanto no que diz respeito às questões sociais (preocupação do autor, que foi membro do Partido Comunista Brasileiro).

SaoBernardo

Vi em Paulo Honório a pessoa de pensamento autoritário – e que ultimamente temos tentado chamar de “pessoa boa”, tentando encontrar alguma humanidade, algo de sentimento. Digo isso sem ironias. É que Paulo Honório não significa suas atitudes de modo a entender-se criminoso ou patrão explorador. Pela sua lógica (dele e de muitos outros, isso não é exclusivo dele de modo algum), eliminar um concorrente que é mau para tantos outros e de fato odiado não é assassinato, mandar matar não é assassinato; fingir não é enganar e trapacear é esperteza – e o mundo é dos espertos. Não vê necessidade de pagar mais que o mínimo para a sobrevivência aos seus empregados, nem em escolher em quem eles votarão. Isso tudo porque as coisas são assim, funcionam assim, e não cabe nesse modo de pensar o questionamento de porque o mundo corre dessa forma. Cabe a ele, unicamente, jogar o jogo para ganhar.

Graciliano consegue, contudo, pintar um ser que tem tudo para ser odioso (e é), mas que de alguma forma também desperta eventualmente algum outro tipo de sentimento. Não sei se compaixão, mas de qualquer forma é algo que humaniza aquele que deveria ser o absoluto vilão. (Um exercício, aliás, difícil de completar com sucesso no nosso dia-a-dia.) As ações vis de Paulo Honório têm uma história, Paulo Honório é um ser de história. E Paulo Honório é, também, uma pessoa, que deseja e eventualmente pode desejar uma pessoa, um tipo de afeto.

Não vou dizer muito mais sobre o livro. É uma leitura que pode ser localizada no tempo pelos acontecimentos aos quais faz referência, mas ainda atual no que diz respeito ao entendimento do que é o Brasil, que parece seguir sendo terra pertencida a alguns.

Livraço.

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