Memória social: “O gigante enterrado” | Kazuo Ishiguro

Eu gosto muito do Kazuo Ishiguro. Sério. Ele é um autor que chegou pra mim sem estardalhaço, sem grandes expectativas, mas dono de dois livros que eu gostei demais: Não me abandone jamaisOs vestígios do dia – o segundo tendo entrado na minha lista de livros preferidos da vida. O Ishiguro tem uma maneira de tratar da memória pessoal nestes dois livros que é muito delicada, mas que mexe muito fundo em como nós mesmos refletimos sobre o que entendemos ser e ter sido nossa vida. Com esses sentimentos, me aventurei na leitura do livro mais recente dele, O gigante enterrado, lançado no ano passado, em 2015, após um hiato de dez anos do autor.

O gigante enterrado, de Kazuo Ishiguro

Adianto que O gigante enterrado não ficou à altura dos outros dois livros que li do autor. Achei a narrativa lenta sem necessidade em algumas partes e a partir de determinado ponto do livro comecei a ficar um pouco distante da história e de seus personagens. Contudo, achei interessante como Ishiguro propôs aqui uma discussão um pouco diferente ao deslocar a construção do passado (e do presente) do âmbito mais pessoal (como nos outros livros) para o coletivo. Explicando: O gigante enterrado se passa em uma Inglaterra mítica que evoca a lenda do Rei Arthur. Anos após sua morte, um casal de velhos sai de sua aldeia em busca de seu filho, que há anos não veem. A particularidade: a ilha teria mergulhado em um profundo esquecimento, sem memória deste passado de guerras entre bretões e saxões que, ao final, teria unificado o país.

The buried giantComo pessoa formada em história (não me considero historiadora), acho particularmente interessante a discussão da memória. Somos, enquanto sociedade, uma construção histórica e coletiva na medida em que nos entendemos pela narrativa que é construída socialmente. Agimos pautados neste entendimento e, ao atuarmos no mundo, também reforçamos ou não estas construções. No entanto, é importante explorar e elaborar nosso passado. É este ponto que o romance de Ishiguro aborda ao contar de um povo sem memória e que, desta forma, segue sem conseguir lidar com seus fantasmas. Em nome de uma suposta conciliação e de uma falsa pacificação, evita-se encarar o passado, os problemas.

 

Como disse no começo, não foi um livro particularmente tocante do Ishiguro, mas para aqueles que gostam do autor, ainda me parece uma leitura válida, que explora outras dimensões da construção de si através da narrativa e da memória.

Editado em 15/06/2016: Esqueci de falar ainda do esquecimento (que ironia). Memória e esquecimento andam juntos, é impossível que a gente se lembrar de tudo, como bem nos mostra o excelente filme do Charlie Kaufman, Sinédoque, Nova York (2008, disponível o Netflix). A elaboração de uma narrativa sobre o passado pressupõe o apagamento, sempre, de algo – são feitas escolhas. Por isso mesmo o livro torna-se uma leitura interessante para pensar esse nosso fazer enquanto seres sócio-históricos.

8 thoughts on “Memória social: “O gigante enterrado” | Kazuo Ishiguro

  1. Oi, Olivia!
    Sou doida pra ler algo desse autor e talvez eu leia esse livro, já que gosto muito de histórias que falem sobre o Rei Arthur. Gostei das suas observações acerca das memórias, embora você não indique começar a conhecer o autor por esse livro, me deu vontade! hahahahha
    Um beijo!

    1. Oi, Bárbara! Realmente, esqueci de dizer, mas acredito que tanto “Não me abandone jamais” quanto “Os vestígios do dia” são bons para se apaixonar pelo autor. Esse cara é fantástico!
      Beijo!

  2. Oi, Olivia! ^_^
    Adorei a resenha! Sabe que eu gostei desse ritmo mais lento? Ishiguro me forçou a ler o livro com mais calma, coisa que não costumo fazer (quando gosto de um livro, devoro e depois percebo que li algumas partes de maneira apressada).
    Para mim o que mais ficou do livro foi a questão da paz como esquecimento. Aqui a ausência de memória histórica uniu diferentes povos, o que por si só já uma ideia muito interessante. E ainda tem a questão da memória como um fator de união também para o casal. Ou seja, a memória em nível individual e coletivo, como você comentou lá no meu vídeo.
    Eu AMO Sinédoque, Nova Iorque. Aliás, amo tudo que Charlie Kaufmann faz.
    Beijo!
    P.S. Achei muito chique o “.com”. Tenho vontade de investir mais no blog e no canal, mas como não ganho dinheiro nenhum com isso, fico na minha. Risos.

    1. Interessante a discussao do Ishiguro, né? Eu fico pensando muito em termos da discussao na historia em torno da memória. De qualquer maneira, a gente cria algo em relação ao passado, algo que é até da ordem do sentimento e que está presente em como nos vemos no mundo. No caso deste livro, a memória criada era a de um Rei Arthur pacificador, de batalhas sem dizimação. Era um falseamento mesmo. E tanto no âmbito coletivo quanto individual, o que somos sem passado? Exste também dentro da discussao sobre o assunto o chamado “perdão na história”, ou ainda a reconciliação com o passado. É admitir que tais coisas aconteceram, mas não viver em função daquilo. A Alemanha por exemplo com o holocausto. De forma alguma o papel deles é contestado, eles estudam isso à exaustão nas escolas, mantém os campos de concentração, erguem monumentos às vítimas do holocausto etc, mas acho que pode-se dizer com certa segurança hoje que ha uma aceitação do passado sem que ele se transforme em ressentimento. Escrevendo isso agora até me lembrei que encontrei dois israelenses judeus quando estava viajando na Alemanha e eles me disseram que adoravam a Alemanha, que tinham perdoado o país e as pessoas, que são outras pessoas agora ali. Mas eles nao perdoavam a Áustria por exemplo, porque a Áustria nunca se retratou e nem admitiu seu papel na 2ª Guerra Mundial. Interessante, né? Quando fui fazer o texto fiquei pensando no Brasil mesmo e os embates atuais em torno da memória e da significação da ditadura militar. Me parece que a gente vive meio como os personagens de “O gigante enterrado”…
      Enfim, essa discussao é muito tensa, eu considero até difícil mesmo, mas é MUITO interessante. Adoro.
      Menina, tenho esse domínio há um ano e só agora resolvi colocar a coisa pra frente! Também nao ganho nada, isso aqui só me dá gastos na verdade, mas resolvi fazer isso mesmo assim.
      Besos!!

  3. Você não é a primeira que vi comentando sobre este livro e seu ritmo mais lento. Uma pena, o plot parece ser tão interessante. Eu tenho este livro, e os outros dois do autor que vc comentou “Vestígios do dia” e “Não me abandone jamais”. O autor é muito elogiado e tenho muita vontade de ler algo dele.
    Bjos.

    1. Daniela, todo mundo que eu conheço amou “O gigante enterrado”, olha só. Eu adoro os outros livros do autor, esses dois que você tem recomendo fortemente. Às vezes vale começar por eles e depois chegar em “O gigante”, né?
      Abraços e depois conta o que você achou! =)

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