Filme: “Belle” (2013)

Acredito que eu nunca fiz um post para falar exclusivamente de um filme. Não sei falar sobre filme para além do “gosto” ou “não gosto”, comentar umas cenas, a própria história… Mas neste caso vou pedir licença (pra mim mesma?) para conversar um pouco sobre “Belle”.

Belle (2013)

“Belle” foi lançado em 2014, com roteiro e direção da Amma Asante, uma mulher (voltarei neste ponto mais adiante). É baseado em uma história real: a de Dido Elizabeth Belle (Gugu Mbatha-Raw), nascida da relação extra-conjugal entre uma escrava negra e um oficial naval inglês, na segunda metade do século XVIII. Seu pai escandaliza a família e a sociedade inglesa ao levar esta filha para ser criada junto da sua família, com todos os privilégios de uma filha legítima. O que chamou minha atenção neste filme, ou na história, é que Dido se movimenta por diversas identidades: é negra, mulher e rica em uma sociedade inglesa aristocrática extremamente conservadora e em um mundo escravocrata.

Acompanhamos a protagonista justamente construindo seu entendimento dessas múltiplas identidades, o que acontece a partir de um caso importante do comércio de escravos. Seu tio, um importante juiz, está julgando o caso que ficou conhecido como o massacre de Zong, em referência a um navio negreiro que jogou sua carga ao mar para poder salvar a tripulação e pediu ressarcimento à companhia seguradora. O detalhe: a carga em questão são pessoas escravizadas.

É a partir deste episódio que Dido começa a desvelar o mundo ao seu redor, ao mesmo tempo que toma posição dentro deste contexto. Ela é negra, mas não escravizada. De fato, ela é herdeira, achando-se em posição mais confortável do que sua prima e melhor amiga, Elizabeth, quem sem nenhum dote encontra-se em situação difícil para uma mulher daquela época. Vindo de família de considerável lugar na hierarquia social, ela não pode se rebaixar e casar “abaixo” de sua posição. Contudo, sem dote, tampouco consegue atrair pretendentes em um mundo no qual casamentos passam longe de amor romântico e estão mais próximos de contratos comerciais.

O fato de Dido não ter a mesma preocupação com dote, no entanto, não quer dizer que o tema casamento para ela não seja tópico de discussão e preocupação. Se dinheiro não é problema, sua cor de pele que acompanha a denúncia de origem em uma relação ilegítima certamente se põe como uma barreira intransponível: quem de sua posição estaria disposto a “perdoar” (esta é a palavra usada em determinado momento do filme) esta falha?

Belle (2013) Dido and Elizabeth

Um ponto muito interessante do filme são as relações entre as mulheres. Só me lembro de um momento que há tensão entre duas personagens em torno do assunto casamento. De resto, as amizades são sólidas e não vemos aquelas clássicas situações de inveja e competição. Talvez este seja na verdade o que achei de mais interessante no filme, pois foram relações que me pareceram muito plausíveis, situações e reações que condiziam com o histórico dos personagens e com os vínculos estabelecidos. Lá pela metade do filme, esperando que fosse surgir algum atrito e na verdade vendo que o desenrolar da situação passava longe disso, pensei que só uma mulher poderia ter feito aquilo. E era mesmo, já que a diretora é uma mulher negra. 

Belle (2013) Amma Asante


E agora vem uma parte estranha: a parte que eu digo que, tirando o mérito do filme de suscitar essas diversas discussões, trata-se na verdade de uma obra fraca. Muitas situações improváveis para a época e, segundo o pouco que encontrei pela internet, também falho nos aspectos factuais. Fiquei pensando nas razões, e me parece que o filme talvez seja um pretexto para trazer à tona estas discussões apontadas acima: que a intenção era mesmo falar sobre a mulher negra, sobre sororidade e sobre escravidão. No entanto, infelizmente como um todo deixa a desejar.

Recomendo para escolas e para colocar casualmente pra família conservadora. Vamos martelando devagar, mas continuamente. 😉


Belle
2013
Dir.: Amma Asante
Elenco: Gugu Mbata-Raw, Sarah Gordon, Sam Reid, Tom Wilkinson, Emily Watson, Penelope Wilton, Miranda Richardson, James Norton, Tom Felton, Matthew Goode.

2 thoughts on “Filme: “Belle” (2013)

  1. Esse está na minha lista do #vejamaismulheres 😉
    Um filme que vi este ano e me surpreendeu foi o “Um pouco de caos”, ao mostrar não apenas uma protagonista à frente de seu tempo, mas também essa questão de sororidade, já que é dirigido por um homem. Se tiver a chance, recomendo uma conferida.
    Beijo!

    1. Ah, eu vi esse filme também, Michelle! Não gostei muito, mas eu acho que é porque eu estava com altas expectativas, já que adoro a Kate Winslet e o Alan Rickman. Mas de fato é interessante também para abordar feminismo. =)
      Beijos!

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