Internet do bem: “A cultura da participação” | Clay Shirky

Muito se tem discutido sobre a internet ser algo bom ou ruim. A cultura da participação, do professor estadunidense da Universidade de Nova York, Clay Shirky, é mais um livro sobre o tema. E se o título não deixa clara a posição do autor, o subtítulo certamente dá o tom desta sua obra: “criatividade e generosidade no mundo conectado”.

Adiantando, então: este é um livro que acredita profundamente que a internet, nos moldes da web 2.0, na qual virtualmente qualquer pessoa tem diante de si um instrumento que permite a publicação do seu conteúdo para todo o mundo, é essencialmente algo positivo para o mundo. Ao longo do livro o autor apresenta vários casos interessantes de pessoas que, através da internet, conseguiram se juntar para fazer algo.

A Cultura Da Participação, de Clay Shirky

O autor parte da ideia que eu acho bastante problemática, a de um “excedente cognitivo” : nas sociedades industrializadas, após sermos “liberados” de certos afazeres e com uma jornada de trabalho de 40 horas semanais, teríamos bastante tempo disponível em nossas mãos. Até algum tempo atrás, ocupávamos esse tempo com atividades passivas, da qual o exemplo máximo seria a televisão. Sentamos ali, ocupamos todos os nossos sentidos e não somos produtivos, não estabelecemos diálogo com a TV e nem com outras pessoas.

A vida no mundo desenvolvido inclui uma quantidade enorme de participação passiva: no trabalho, somos malandros e, em casa, somos bichos-preguiça.

Tendo colocado os pressupostos e a citação acima, passo agora aos meus problemas com o livro. No que pese eu concordar que os meios técnicos exercem influência nas pessoas como sujeitos sociais e, assim, influenciam a sociedade, me parece exagerado supor que as pessoas são tão reféns assim da técnica a ponto de não criarem outras estratégias. Afinal de contas se, como Shirky parece defender, as pessoas têm esta necessidade de estarem em contato umas com as outras, de estabelecerem algum tipo de relação porque o ser humano é social, por que não criariam outras formas de fazê-lo em um mundo industrializado sem internet?

Ao mesmo tempo, ainda que o autor ressalte estar falando sobre a sociedade industrializada, ao longo do livro ele parece esquecer que nem todo mundo está na mesma situação de acesso à internet como ele pressupõe. Sim, somos bilhões conectados, mas também temos bilhões não conectados. De fato, dados de 2015 apontam que são 4 bilhões de pessoas no mundo sem acesso à internet. (O que será que essas pessoas têm feito com o tal “excedente cognitivo” delas?)

Me parece que essa argumentação muito centrada nas vantagens da internet acontecem porque Shirky é mesmo um entusiasta da web 2.0 (esta internet que conhecemos, na qual a produção e publicação de conteúdos pode partir de qualquer usuário. São exemplos: chats, fóruns, blogs, redes sociais etc.). Ao longo do livro ele dá vários exemplos de casos de fato incríveis de como as pessoas na internet se juntaram para fazer alguma coisa de forma conjunta, desde a Wikipedia até sites geradores de meme. O autor critica bastante o que considera ser de nenhum valor, como os próprios memes, contrapondo com as possibilidades que uma internet colaborativa traz em termos de geração do que ele chama de valores público e cívico – isto é, ações que reúnem mais pessoas em torno de projetos que poderão ser utilizados por todos (como é o caso da Wikipedia ou de softwares livres) ou que pretendem transformar a sociedade (como o exemplo que ele dá do que aconteceu na Índia na campanha do Chaddi rosa).

Aqui o problema se aprofunda, porque Shirky faz claramente juízo de valor quanto às ações, classificando-as como boas ou ruins sem explorar mais profundamente como tais movimentações acontecem na internet e o que aquilo significa. Por exemplo, ele critica duramente um site de memes porque aquilo ali basicamente não serve para nada. Se estamos partindo da ideia de que o ser humano é social e que deseja estar com os outros, essa dispensa de tudo o que existe na internet que não serve aos propósitos que Shirky acredita serem importantes faz pouco sentido. Entendo que o autor quer colocar a internet como espaço para a promoção de mudanças em direção a um mundo mais democrático no sentido da participação coletiva (ele não fala sobre democracia, mas pelas pautas que ele parece defender foi esta a sensação que eu tive). Ainda assim, ele parece colocar a internet como só isso, enquanto ela assume diferentes papéis e significados para diferentes sujeitos em diferentes contextos.

O interessante do livro, entretanto, é ele pontuar muito algo que acredito ser essencial: que as ferramentas não ditam como elas serão apropriadas.

Os usos sociais de nossos novos mecanismos de mídia estão sendo uma grande surpresa, em parte porque a possibilidade desses usos não estava implícita nos próprios mecanismos. […] o uso de uma tecnologia social é muito pouco determinado pelo próprio instrumento; quando usamos uma rede, a maior vantagem que temos é acessar uns aos outros. (p. 18)

Shirky bate na tecla de que pela primeira vez somos colocados, todos nós que estamos conectados à internet (e somos muitos, ainda que não sejamos maioria ainda), diante de um botão publicar. Que ao invés de estarmos conectados a um ponto único, formamos redes diversas: estamos ocupados uns com os outros. Isso é certamente o ponto que vários pesquisadores e pensadores que se ocupam das novas tecnologias de comunicação estão interessados em pensar e discutir. Podemos, mais do que nunca, interferir nos textos (escritos ou não), conjugar materiais diferentes, estabelecer relações, criar e tornar públicas nossas criações, sem precisar passar pelo crivo de um especialista ou de alguém com poder institucional para tal. Alguns vêm isso como algo horrível, Shirky adora.

Quanto a mim, não entendo que possamos fazer juízo de valor disso. Bom e ruim são categorias e conceitos muito subjetivos.

  • Publiquei um outro texto sobre internet e o livro O filtro invisível, do Eli Pariser. Está aqui.

Título: A cultura da participação: criatividade e generosidade no mundo conectado
Autor: Clay Shirky
Ano de publicação: 2011
Editora: Zahar
210 páginas

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