“Vozes de Tchernóbil” | Svetlana Aleksiévitch

Você saía da cidade, e ao longo da estrada surgiam espantalhos; via uma vaca pastando coberta por um plástico e ao lado dela uma velha também coberta por plástico. Você não sabia se ria ou se chorava. (p. 258)

O mundo parece cheio de absurdos. De fato, como significar algo que não tem precedentes na história humana? Como tentar entender? Svetlana Aleksiévitch reuniu, em Vozes de Tchernóbil, relatos orais de pessoas que viveram a catástrofe nuclear das maneiras mais diversas, e chama-as a relatar sua percepção – se é que podem elaborar – sobre o desastre.

Quando eu começo a contar, vem um sentimento, o coração me diz que estou cometendo uma traição. Porque tenho que descrever como se não fosse a minha filha, como se fosse outra… (p. 68)

Tem livros que têm tantas entradas, tantos pontos para discutir, que provocam tantas reações, que são gatilho para tantos pensamentos, que é difícil falar sobre eles. Vozes de Tchernóbil é assim. Poderia ficar horas falando sobre o livro de Svetlana Aleksiévitch, mas não é fácil estabelecer um começo, uma linha de raciocínio com início, meio e fim que encerre tudo o que eu gostaria de destacar desta leitura.

Vozes de Tchernóbil, Svetlana Aleksiévitch

Talvez esta dificuldade minha de estabelecer uma lógica esteja relacionada com o que é Vozes de Tchernóbil: uma seleção de relatos orais sobre o desastre da usina nuclear de Tchernóbil, na Bielorússia. (De fato o subtítulo na tradução brasileira é “a história oral do desastre nuclear”.) “O desastre”, neste sentido, é expandido para além do incêndio em si, e os vários relatos vão tecendo um contexto e ampliando a nossa visão sobre o que significou para as pessoas daquele lugar, envolvidas das formas mais diferentes, o chamado desastre nuclear de Tchernóbil.

Eu poderia falar sobre vários aspectos que me chamaram a atenção nos relatos, mas acredito que foram três os pontos que mais me marcaram:  as questões que perpassaram o militarismo, a identidade e a dualidade.

As falas ecoam a ideia de um mundo bipolarizado, dividido entre capitalismo e socialismo. As pessoas que falam evocam constantemente a noção do “homem soviético”, uma identidade total que não abre espaço para ser qualquer outra coisa. Muito já se falou e ainda se fala sobre a falta de individualidade dentro da experiência soviética, e os relatos recolhidos pela Svetlana Aleksiévitch podem ser vistos, obviamente, como uma crítica a este socialismo. Contudo, me parece mais profundo: uma crítica a um pensamento que dominou o período de modo global (e persiste hoje também), pautado na ideia da identidade nacional como preponderante.

E daí, me parece, vem o golpe mais profundo e terrível: com Tchernóbil e logo depois o desmantelamento da União Soviética, pessoas que cresceram e se formaram dentro de uma cultura, viram-se sem aquelas bases. Perdeu-se uma estrutura de estado que se imprimia em tantos lugares da sociedade, e ao mesmo tempo, sobretudo para aqueles que viviam nas áreas mais afetadas pela radiação, foi retirado o próprio fazer diário, o cotidiano. As pessoas se vêm então desterrados de todas as formas: para além de sair do espaço físico, altera-se o mundo, o universo daquelas pessoas de forma profunda, a ponto de se verem sem referenciais. Me aterrorizou esta sensação de estar sem chão.

O passado já não me protege. Não me tranquiliza. Não dá respostas. Antes sempre dava, agora não mais. O futuro me arruína, não o passado. (p. 57)

O mundo se dividiu: há os de Tchernóbil, nós; e há vocês, o resto dos homens. Você notou? Nós já não distinguimos: eu sou bielorrusso, eu sou ucraniano, eu sou russo… Todos nos chamamos de pessoas de Tchernóbil. Nós somos de Tchernóbil, eu sou de Tchernóbil. É como se fôssemos um povo à parte… Uma nova nação… (p. 172)

Tchernóbil e a radiação foram figuras tão novas, tão sem precedentes que, como no relato acima, impossibilita qualquer compreensão e significação, uma vez que não há, no passado, nada no que se apoiar. Buscou-se, então, a referência mais próxima que se tinha em relação à ameaça nuclear: a guerra. Em um mundo militarizado e pautado nas ideias nacionalistas de risco à pátria (ah, como temos visto isso hoje…!), o combate ao outro mobilizou a força militar para enfrentar o inimigo invisível: o átomo, a radiação. E, como o livro se esforça em deixar claro, o viés militar trouxe consigo a rigidez, a noção de seguir ordens, o que acabou provocando mais problemas.

Ao fim, somos confrontados com falas contundentes, com a constatação ou aceitação – difícil precisar – de que Tchernóbil faz parte das vidas dessas pessoas. Das vidas dos que saíram porque em contato com o resto do mundo serão sempre “de Tchernóbil”; dos que voltaram, porque só ali conseguem se entender livres.

Temo dizer isso, mas nós… nós amamos Tchernóbil. Passamos a amar. Reencontramos o sentido da nossa vida. O sentido do nosso sofrimento. Como a guerra. O mundo nos descobriu, a nós, bielorrussos, depois de Tchernóbil. Antes, éramos uma janela para a Europa. Tchernóbil… Nós somos ao mesmo tempo as suas vítimas e os seus sacerdotes. É terrível pronunciar isso. Entendi isso faz pouco tempo. (p. 334-335)

Estive perto de algo, de algo fantástico. E essas palavras “monumental”, “fantástico” não dão conta do que foi. É um sentimento… Qual? (Fica pensativo.) Um sentimento que eu não experimentei nem no amor. (p. 289)

E em meio a tudo isso, ainda existe espaço para o amor…!


Título: Vozes de Tchernóbil: a história oral do desastre nuclear
Autor: Svetlana Aleksiévitch
Ano de publicação: 2016
Editora: Companhia das Letras
383 páginas

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