Sobre book haul

Dentre os tipos de posts que existem na parte da internet formada por leitores que se dedicam (ainda que de maneira descompromissada) a falar sobre livros na web, há, para além das resenhas de obras individuais, do resumo de leituras do mês, das tags e de eventuais listas temáticas, o book haul. Geralmente em vídeo, ele é destinado a listar os livros adquiridos recentemente.

Não raro, ao assistir um vídeo deste tipo vejo a pessoa ou se “desculpando” ou frisando o conteúdo do post, avisando ao expectador que, caso ele não goste deste formato, pode muito bem não assistir, mas que não é necessário deixar comentários de insulto. Dada a frequência com que isso acontece, entendo que existem pessoas que têm algum tipo de problema com o book haul. Hoje, conversando com minha companheira de podcast, Lívia (que recentemente abraçou o e-reader), tive a chance de perguntar o porque do ódio ao book haul, tendo ela se declarado veementemente contra o mesmo: cultura do consumismo, da posse, o ridículo que é pessoas comprando cinco livros por mês tendo em vista ser impossível elas lerem aquilo tudo neste mesmo espaço de tempo.

No que pese tudo isto ter parte de verdade (apesar de que a internet me fez conhecer muita gente que lê cinco ou mais livros por mês, sim), não acredito que servem como argumentos para julgar definitivamente o book haul como exibicionista ou nocivo à leitura e aos livros.

Existe toda uma bibliografia de historiadores que enxergam o livro como artefato da cultura material (dentro da história cultural). Alguns dos historiadores mais importantes da atualidade, de fato, se ocupam ou já se ocuparam do assunto, como Roger Chartier, Peter Burke e Robert Darnton. O livro, para além do texto nele contido, é enxergado também em sua materialidade. Se neste caso o olhar do historiador recai nos vestígios que o ajudam a compreender o contexto social e cultural daquele período histórico, pensando no presente, no imediato, podemos perceber que características físicas do volume que carregamos nas mãos também informa algo mais daquela obra: seja uma capa, o tamanho, o papel, a fonte, ilustrações… E temos as preferências. Darnton aponta, por exemplo, que não consegue realizar uma leitura profunda se não em papel.

Ler livros físicos, portanto, acredito não ser ponto tão controverso assim. Podemos pegar emprestado de amigos, de bibliotecas por exemplo. O ponto, lembrando o que a Lívia disse, seria a posse e o consumismo. Algumas pessoas alegam, ao ser questionadas quanto a isso, que o dinheiro é delas, ganhado de maneira honesta e com ele elas fazem o que quiserem. Verdade, mas eu queria sair deste argumento que me parece fraco. Por que ter livros? Por que possuí-los é legal ou mesmo importante para umas pessoas?

Eu gosto de ter livros. Eu gosto da ideia da minha biblioteca. Aquela seleção de livros que dizem algo do que somos ou fomos – não necessariamente para os outros, mas para nós mesmos. Meus livros estão no meu quarto, no qual pouca gente entra, não são objetos de exposição nem decoração (minhas pilhas de livros não são visualmente atrativas para a ideia de tornar um ambiente bonito), meus familiares não se interessam pelo que tem por aqui e meus amigos também não dão muita bola. Meus livros são meus, eu os vejo. Não mantenho tudo o que leio, me desfaço periodicamente de algumas coisas. Mas dentre o que fica, tenho pegado carinho. (Esta pode ser a parte materialista, é verdade.) Eu tenho desenvolvido o hábito de, volta e meia, ficar ali uma meia horinha pegando livros já lidos e voltando em certos trechos, ou passeando entre os livros não lidos – as promessas. E gosto de emprestar também, é verdade, apesar de não ter tido a oportunidade porque de fato ninguém quer.

Mas às vezes nossa coleção é modesta, o problema mesmo é comprar muitos livros sem dar conta de acompanhar, em termos de leitura, o dispêndio do bolso. Bom, retomo a ideia anterior e chamo Umberto Eco para me ajudar. Dono de uma biblioteca particular de algo em torno de 50 mil volumes, ele diz que não raro lhe é colocada a pergunta que considera estúpida: “você leu tudo?”. Eco enfatiza o que entende, então, por biblioteca particular:

Uma biblioteca não é um repositório dos livros que já lemos. É também o lugar onde guardamos os livros que iremos ler. […] Tem a ver com o futuro. Uma biblioteca é um mistério. Há livros que nunca tínhamos lido e um dia dizemos: “Deveria lê-lo”. E quando o abrimos percebemos que sabemos tudo sobre ele. O que aconteceu? Existe uma explicação mágica segundo a qual, ao tocarmos um livro, o espírito de todos os livros viaja para a nossa mente. Outra explicação é: pensávamos que não o tínhamos lido, mas ao longo de 30 anos fomo-lo abrindo e lendo partes dele. Existe ainda outra: pelo meio, acabamos por ler imensos livros que falam desse livro. É uma das surpresas que a biblioteca pode reservar. No meu caso, tenho muito boa memória. Sei onde está cada livro, mas se alguém da família encontrar um que deixei num determinado sítio e o mudar de lugar é uma tragédia. Perco-o para sempre.

(Entrevista completa aqui.)

Umberto Eco. Foto: Roberto Magliozzi
Foto: Roberto Magliozzi

Neste sentido do que iremos ler e do porque escolhemos aquele livro para estar na nossa biblioteca particular é que entendo estar o book haul. Por isso não gosto de meras listas que trazem simplesmente título e autor, mas gosto de ouvir da pessoa o caminho até aquele livro e a decisão de selecioná-lo em meio à ampla paisagem de publicações. Entendendo que livros têm múltiplas entradas, às vezes o que eu entendo daquela obra não lida é diferente do contexto no qual outro leitor a inscreve, e o livro é ressignificado.

Entendo que este não é necessariamente o caso de todos os book hauls, e que muitos são desinteressantes. Assim também o são muitas resenhas – às vezes existem resenhas sem qualquer atrativo de livros que adoro. Entendo o book haul como um aguçador de curiosidade (de quem o faz e de quem assiste), e comprar muitos livros por mês, bem… Uma atividade deliciosa de tentar traçar um futuro, o que nos tornaremos.

11 thoughts on “Sobre book haul

  1. Olivia, concordo com muito do que você falou, mas sobre o book haul, sei não… Se eles refletissem as compras das pessoas seria legal, pois cada compra é uma escolha, mas na prática o que a gente vê é o youtuber mostrando o que recebeu de parcerias. Não tem a seleção dele ali, é só um amontoado de livros e propagandas, então pra mim esse book haul não diz nada. E infelizmente a maioria que eu vejo é assim. Não vejo graça.

    Há! Tava devendo um comentário aqui! =)

    1. Então, eu pensei nisso, mas resolvi não falar sobre porque não é o caso das pessoas que acompanho. Tem gente que mostra sim de parcerias, mas não somente, e dependendo da parceria foi uma escolha da pessoa também. Por isso, nessas pessoas que assisto, não acho que é o caso de invalidar o book haul como um todo. Aliás, entrando no assunto booktube voltado para o comercial a coisa de fato muda de figura, porque tem gente que quer ganhar livro mesmo ou ganhar muitos views. Talvez outra hora eu complemente com esse lado, mas é que tem uns ódios tão grandes, sabe, e acho que tem o lado bom do book haul quando não é realizado como vitrine de editora.
      Menina, confesso que to ha dias sem entrar no seu blog também, sou mega culpada do crime de visitar blogs com pouquíssima frequencia! Hahahaha!
      Beijos!

  2. Oi Olívia! Que ótimo o seu texto. Eu gosto dos Book Hauls e os procuro principalmente quando quero ver mais detalhes das edições. Sabe quando você está na dúvida se compra ou não um livro? Ver as edições, a diagramação, ouvir, como você sitou, a pessoa falando sobre ele, me faz decidir comprar ou não!

    1. Interessante, Renata! Eu também procuro ver os livros, geralmente edições estrangeiras que a gente não vê em livrarias por aqui. Legal sua relação!
      Abraços!

  3. Eu vou tão pouco em livrarias que acho uma delícia ver book haul, pra ver como saiu tal edição, pra me inteirar dos lançamos… Não vejo muito problema… Só realmente acho meio constrangedor quando a pessoa mostra 20 livros adquiridos em um mês, e não dá conta de ler um quinto disso… Parece descontrole, e parece exibicionismo sim… Quanto a essa pergunta: “você já leu todos esses livros?”, escuto isso de cada alma viva que entra na minha casa, estou quase bordando um quadrinho e pendurando na parede com a resposta “NÃO” 🙁

    1. Anna Carolina, eu confesso que de vez em quando tenho surtos de compras de livros. Hahaha! Acho que depende do tom do vídeo e da pessoa. Na maioria das vezes as pessoas que acompanho acho que tão mais é na ânsia mesmo de ler várias coisas e aí não vejo mostrar as compras como um “olha tudo o que eu tenho”, mas sim como “olha que louco tudo o que decidi que um dia quero chegar a ler!”. Hahahaha! Claro que isso traz outras questões, como ansiedade pra ler aquilo tudo e tal, mas já é outra história.
      Abraços e obrigada por comentar! =)

  4. Olivia, nunca tive problemas com book haul. Eu só consigo comprar livros agora e sim gosto de comprar mais do que lerei. Estou repensando minhas escolhas de compra e decidi que apenas com livros vou continuar exagerada. Rsrs. Mas a parte que mais me tocou do seu texto foi a significaçao do livro. Estive me questionando acerca disso, pois estava escrevendo de uma forma acadêmica no blog, coisa que já faço na faculdade. Então, eu estava justamente pensando que seria mais interessante escrever sobre minha relaçao com as leituras e seu texto só confirmou o que vinha pensando. Beijos!!!

    1. Oi, Lua! Ih, você está como eu nas compras. Mas ultimamente to com tanto livro não lido que pretendo dar uma freada neles também, tá me causando ansiedade esse tanto de coisa não lida aqui. Mas isso à parte, acho bom a gente parar de vez em quando para refletir porque gostamos do que gostamos ou fazemos o que fazemos. Sobre ser acadêmica: acho que não tem como a gente colocar o que vemos na faculdade de lado, passa a fazer parte de quem somos, ne? Eu adoro certos autores e eles me ajudam a pensar. Mas de fato a academia estabelece regras para expor nossas ideias, tende a podar um pouco os sentimentos, eu acho.
      MUITO obrigada pelo comentário. =)
      Besos!

  5. Realmente um assunto que pode ser bastante discutido entre as pessoas que gostam de ler, vi bons questionamentos em seu texto e, gostaria de contar sobre mais uma situação, que no caso, é pessoal, onde eu, portanto, tive uma infância financeiramente difícil e que ao longo de meus esforços fui encontrando um conforto financeiro que me trouxesse a possibilidade de viver e não apenas sobreviver, dentro desse contexto, nunca pude, porém, sempre quis, ter minha própria biblioteca por vários motivos, sempre tive maior cuidado com bens materiais do que a maioria das pessoas ao meu redor, sempre gostei de dividir o que tenho, porém não o faço novamente se me devolvem de forma extraviada, usar livros de outros ou de biblioteca, sempre se encontra alguma marca ou algo que não fui eu que fiz, acho muito importante ter suas próprias marcações e revê-las no futuro, isso faz lembrar de situações e detalhes do livro, então, como comecei a comprar livros físicos a poucos anos, já fui imediatamente gastando quantias consideráveis por mês com livros, cheguei a comprar uns 20 no mesmo mês, e não era por motivação consumista, mas visando adquirir o conhecimento de dentro destes livros que a tanto tempo eu visava, tentei por outros métodos antes, como ler em formatos digitais, e nunca consegui finalizar um livro destas formas, o papel é a única forma que consigo, continuo ainda comprando em quantidade, já não compro todos os meses, e meus objetivos são de pesquisar sobre eles antes de adquiri-los, não apenas comprar por comprar, e tento aproveitar os melhores valores, onde comprar muitos ao mesmo tempo sempre facilita, até mesmo na economia com frete e nas parcelas. Realmente prefiro livros novos, mesmo porque as vezes pago mais caro um usado em algum sebo ou revenda particular, do que novo por lojas online.

    1. Olá! Obrigada pelo comentário. =)
      Acho que muitos de nós leitores passaram por isso de começar a comprar livros mais tarde, ao começar a ganhar um dinheirinho melhor. As vezes exageramos acho que até pra compensar esse tempo, mas como voce disse, eventualmente chegamos a um equilíbrio.
      Abraços!

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