Nós e os objetos: “O casaco de Marx” | Peter Stallybrass

O casaco de Marx: roupas, memória, dor chegou até mim sem alarde algum. Passeando na livraria, uma amiga viu o livro e comentou o quanto gostava dele, se ofereceu para me emprestar e no dia seguinte eu estava com ele em mãos. Um livro curtinho, de umas 100 páginas, contendo três ensaios sobre a aproximação, ou melhor, o indissociável que são os objetos e nós, humanos.

O autor, Peter Stallybrass, é acadêmico da University of Pennsylvania, no Departamento de Inglês. Lendo, confesso que achei que fosse um historiador, mas essa aproximação da academia não se traduz em um texto ilegível. Stallybrass consegue recorrer a teorias e mobilizar temas complexos e ainda tornar a leitura acessível e, mais ainda, bonita.

Casaco de Marx, de Peter Stallybrass

Os ensaios partem da suposta separação que existiria entre humano e objeto, justamente buscando superar esta ideia. Logo no primeiro texto, “A vida social das coisas: roupas, memória, dor”, o autor já começa com uma linda reflexão sobre como marcamos nossa existências nos objetos ao nosso redor, que criamos, usamos e moldamos. Para tanto, Stallybrass fala especificamente das coisas que carregamos no corpo: as roupas, aquilo que escolhemos para nos vestir, para nos apresentar visualmente ao mundo. Elas possuíram historicamente valores que estiveram ligados tanto ao econômico, com preços regulados pelo mercado, quanto emocionais, vinculados à memória.

O segundo ensaio é o que dá nome ao livro, e recorre ao próprio Marx para falar sobre valor e mercadoria. Ele parte da situação vivida por Marx, que em situação de muita dificuldade financeira teve de penhorar diversos bens, inclusive seu casaco. Este item, contudo, ele resgatava periodicamente porque precisava de vestuário adequado para frequentar a British Library para escrever sua grande obra, O capital.

Casaco de Marx 2Por fim, no último ensaio, “O mistério do caminhar”, Stallybrass dirige seu olhar aos calçados e ao ato de caminhar, resgatando diversos casos que passam pelo tema. É especialmente contundente a parte que fala sobre Primo Levi e sua caminhada após o fim da 2ª Guerra Mundual.

Este texto está todo truncado, e é porque esse livrinho é de uma preciosidade sem fim. Ao fazer reflexões profundas sobre nossa relação íntima e indissociável com o material (nós somos matéria!), Stallybrass, de um modo muito sensível, nos chama a abrir as caixas pretas da nossa existência, e nos convida a adotar um olhar e postura antropológica para a vida.

Não consigo recomendar o suficiente.


Título: O casaco de Marx: roupas, memória, dor
Autor: Peter Stallybrass
Ano de publicação: 2008
Ano da última edição: 2016
Editora: Autêntica
112 páginas

* Cada artigo foi publicado separadamente, em inglês, conforme informações no livro:

O capítulo “A vida social das coisas: roupas, memória, dor”, foi traduzido de TALLYBRASS, Peter. “Worn worlds: clothes, mourning, and the life of things”. The Yale Review, 81(1), 1993, p. 35-50. 

O capítulo “O casaco de Marx”, foi traduzido de STALLYBRASS, Peter. “Marx’s coat”. In: Patricia Spyer (org.). Border fetishisms. Material objects in unstable spaces. Nova York/Londres: 1998, p. 183-207.

O capítulo “O mistério do caminhar” foi traduzido de STALLYBRASS, Peter. “The mistery of walking”. Journal of Medieval and Early Modern Studies, v. 32, n. 3,2002, p. 571-80.

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