Os significados do ato de caminhar: “Wanderlust” | Rebecca Solnit

Existem coisas tão óbvias nas nossas vidas que raramente, ou mesmo nunca, pensamos sobre elas. Por que fazemos o que fazemos como fazemos. A frase e a ideia parecem idiotas, mas quando nos arriscamos deter um tempo a mais em um tópico, uma série de pensamentos começam a aparecer e tomar forma – ou deformar as coisas. É como quando falamos uma palavra comum várias vezes seguidas e começamos a nos deter em cada som, cada gesto corporal que fazemos com nossa língua e boca, e como isso se transforma em sons… Para mim ler Wanderlust: a history of walking, da Rebecca Solnit, foi assim.Wanderlust, de Rebecca Solnit

É verdade que em aulas de antropologia a gente tem isso, mas a verdade é que eu nunca tive aula de antropologia e só cheguei a textos de forma indireta, para outras disciplinas. Mas pra quem já viu alguma coisa disso, não é incomum a ideia de lançar um olhar profundo àquilo que está extremamente consolidado em nosso mundo. Mesmo assim, mesmo para quem não é estranho a este tipo de reflexão, o livro de Rebecca Solnit é interessante porque passeia por diversos contextos do ato de caminhar, levando a reflexões interessantes.

A autora elege como ponto de partida o século XVIII, entendendo que ali surge uma ideia do caminhar como um ato associado ao pensar e à reflexão; passa também por cientistas preocupados em estabelecer pontos da evolução da espécie humana, tomando como crucial o momento em que a espécie começou a ser bípede (uma parte interessante, aliás, para pensarmos como estudos biológicos de modo algum se dissociam de seu período histórico e, desta forma, estão profundamente ligados ao contexto social); fala ainda das peregrinações religiosas, do andar por longas distâncias para estar em contato de alguma forma com o sobrenatural, com o divino, estabelecendo alguma espécie de laço com os outros fiéis que também se lançam nestas incursões; e umas das minhas partes preferidas, resgata os romances de Jane Austen para discorrer sobre o ambiente em que se dá a caminhada e as ideias de paisagem e natureza que deveriam acompanhar esta atividade.

Todas as reflexões destes capítulos são extremamente interessantes e de alguma forma se interconectam, mas talvez sejam as considerações a respeito da cidade e da mulher as mais incisivas no que toca a como vivemos hoje – ou como eu vivo hoje. As observações sobre o espaço urbano nos levam a pensar como estamos nos relacionando com o mundo: somos o que somos, somos corpo, temos uma existência material, física, que ocupa um lugar no espaço; e temos a capacidade fisiológica de nos movimentar no espaço – mas como a estrutura da cidade, dos espaços (a princípio públicos, mas isto também vai mudando), nos enquadra e nos oferece estas, mas não outras possibilidades de estar e ocupar o público?

No que pese sempre termos entendido o espaço de certa forma e atuado nele de acordo com essa visão (como Solnit discorre no capítulo sobre a paisagem, falando sobre um controle da natureza mesmo quando há a ideia da mesma como o caos ou o selvagem), a autora caminha para uma reflexão acerca do estado atual, quando nos faltam cada vez mais os espaços comuns para estar com outros. Para além disso, nossos espaços de convivência têm se tornado de posse privada: os shoppings. Falando especificamente da minha realidade em Belo Horizonte, já há anos eu e outras pessoas temos observado o crescente domínio dos shoppings e o minguar de parques e praças. As calçadas parecem ser um indicativo crucial: estreitas e irregulares, quando existem ou não estão ocupadas por carros em frente à lojas que oferecem o espaço à sua frente como “estacionamento exclusivo para clientes”.

Rebecca Solnit, que aliás está na raiz do termo “mansplaining“, vai mais a fundo nas significações políticas do caminhar e ocupar o espaço público: resgata o fim do XIX e começo do XX, quando mulheres caminhando sozinhas na rua poderiam ser acusadas e condenadas por “street walking” – andar na rua, literalmente, mas que socialmente assumia o significado de prostituição. Como ela faz questão de apontar, nunca um homem foi acusado de tal crime (sim, crime), o que reforça a ideia de que estar em determinado espaço e se movimentar entre espaços assume um significado político. Aliás, a autora lembra que os magazines e galerias na virada do século forneceram às mulheres um lugar fora de casa no qual era possível estar em público sem estar na rua (e hoje mulheres têm a fama de amar compras…).

Embora Solnit se alongue por uma diversidade de temas, parecendo às vezes escapar à temática do caminhar propriamente dito e passando a falar muito mais dos espaços, me parece que ela traz uma reflexão muito interessante acerca de nossas ações no mundo. Me parece que ainda temos muito forte a ideia de corpo e mente/consciência como coisas separadas, independentes. O que Rebecca Solnit reforça neste livro (e que também é central naquele livrinho que já indiquei aqui, do Peter Stallybrass) é que o mundo material nos informa de como estar no mundo, e que nossos atos têm uma força uma significação.

Ao ler este livro comecei timidamente a caminhar com menos pressa na rua. Às vezes também saio de casa só para dar uma volta. No quarteirão mesmo, andando devagar, sem rumo nem caminho certo pelo bairro. Desacelerar para pensar. Tem sido bom.


Título: Wanderlust: a history of walking
Autora: Rebecca Solnit
Ano de publicação: 2001
Editora: Penguin
336 páginas

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