Sobre números: deletando Goodreads e Skoob

Há algum tempo já o número vem me incomodando. Não é que eu odeie matemática ou que não saiba fazer conta (o velho clichê – chega). Tampouco se trata de um caso de não gostar de números em si – eu até nutro sentimentos por eles: simpatizo com o 8, acho o 7 um canalha. Meu pai adora o 18, parece que sente que são até compadres: “bom número, esse dezoito”, ele diz. Mas é que parece que tendemos a transformar tudo em número, a reduzir tudo a número. Quantificamos e classificamos. Transformamos características, sentimentos, situações complexas em número, para que assim tudo possa ser planificado e, desta forma, comparado.

Ler tantos livros em tanto tempo, contar as páginas, dar nota. Analisar o gráfico de leituras deste ano. Quantos livros lidos na estante? Quantos não lidos? Livros para ler em um dia, pra quem tá apertado pra cumprir a meta do ano, da maratona.

Eu nem pensava nessas coisas há um tempo atrás. Tirando os livros que li excepcionalmente rápido, não me lembro de quanto tempo levava para concluir uma leitura. Isso simplesmente não era importante. Da mesma forma, nunca tinha expressado minha opinião sobre um livro na forma de classificação, seja nota, estrela, ou qualquer coisa parecida.

Atribuir estrelas, aliás, passou a se tornar um tamanho incômodo para mim nos últimos tempos que decidi recentemente parar de fazer isso. Porque vejam só, não se tratava, para mim, de simplesmente traduzir um sentimento em avaliação quantitativa em redes sociais. Aquelas estrelas passaram a informar a minha leitura. Enquanto lia, pensava nelas: “este é um livro três estrelas ou quatro estrelas? Três, este é um livro três.”. E pronto, o livro estava enquadrado. E só existiam cinco possibilidades, por mais diversas que fossem as leituras.

Os prazos eu sei que afligem mais pessoas ainda. Há algum tempo, antes de decidir parar com o canal (sim, parei mesmo), resolvi que sairia daquele esquema de “leituras do mês”. Às vezes eu concluo um livro apenas, ou nenhum, e fazer um vídeo mensal se tornava praticamente opressor. Custei a admitir pra mim mesma, mas inconscientemente eu estava escolhendo livros mais fáceis ou menores para dar volume. A vida é inconstante, eu sou inconstante, e há ocasiões em que não quero ler, quero fazer outra coisa, ou não consigo ler, não consigo me concentrar.

Foi bom enquanto durou. Para muita gente essas ferramentas contribuem para incentivar a dedicar mais da vida à leitura. É legal acompanhar o que algumas pessoas estão lendo, mas tenho começado a me sentir sufocada, vigiada às vezes.

Apaguei tudo. Goodreads, Skoob, tudo sumiu (se é que é possível sumir na internet). Foi para o cemitério o registro de todas as leituras que fiz desde 2012, quando me cadastrei nesses sites. Não salvei, não anotei, nada. Vou me permitir o descontrole.

4 thoughts on “Sobre números: deletando Goodreads e Skoob

  1. Pode ser o velho clichê, mas eu, que vim da Engenharia, adoro números! Muito antes de existir Skoob e Goodreads, eu já tinha meu caderninho onde anotava todas as minhas leituras. Gosto também de analisar algumas estatísticas, tipo qual o percentual de mulheres dentre as minhas leituras. No fim do ano gosto de ver qual foi o livro mais longo que li, por exemplo, mas não me sinto pressionada pelos números. Não tenho nem ideia de quantos livros li esse mês, não tenho metas semanais ou mensais. Até tenho aquela meta de leitura anual no Goodreads, mas o que eu fiz foi simplesmente olhar quanto li ano passado e aumentar um pouquinho. Se eu não atingir, ok! Também não me preocupo em classificar os livros. Só dou nota para os preferidos. É incoerente, eu sei, adoro números, mas não ligo muito para eles. Na verdade eles só servem para registro. No dia em que eles começassem a me fazer mal acho que faria como você. Se bem que não, eu poderia até parar de entrar no Goodreads, mas não teria coragem de apagar os anos de registros que coloquei lá. Ainda mais que de vez em quando eu esqueço se já li algum livro ou não. rsrs

    (Mas ó, fico triste por você ter parado com o canal. Era um dos meus preferidos. Até porque não faço questão nenhuma de leituras do mês, bookhaul e afins.)

    1. Talvez seja isso, Camila, talvez eu seja mesmo intimidada pelo número. Você, tão brother deles, fica de boaça. Hahahaha! Acho que durante um tempo foi interessante, eu queria ler mais, nunca tinha parado para pensar em como eu lia, o que lia, nunca tinha feito um panorama da minha vida literária. Mas de fato pra mim chegou num ponto que o que eu tirava de proveito era menos do que eu sacrificava. A meta até que foi o de menos, no final do ano passado e neste ano eu me deixei ficar bem tranquila em relação a isso. Mas as estrelas, nossa, essas me pegavam mesmo. Já tem muito, mas muito tempo mesmo que vira e mexe penso sobre essa avaliação, sobre em como avaliar… E no final das contas tinha de fato chegado a conclusão de largar a avaliação pra lá. Mas entrar no Goodreads ja estava fazendo parte da minha rotina de internet, o trem entranhou mesmo! Aí deletei. Mas na verdade depois vi que tinha uma lista de livros lidos desde 2014 no blog. Tudo bem, eu vou deixar isso por aqui, vou anotar so isso: título, autor e o ano lido, nada mais. Tenho gostado dos textos mais livres que escrevo por aqui, acho que esse tem mesmo sido o caminho para o que eu queria desde o início com o blog, que era me forçar a pensar mais sobre o livro lido.
      Pois é, deixei o canal. Às vezes me dá vontade de postar algo, mas deixo pra lá porque sei que tem coisas que vem com o canal que eu nao quero, nao neste momento. Mas você surgiu no horizonte youtubeano e isso tem alegrado nossas vidas de leitores! Êeeee! \o/

  2. Isso! Olha Olívia, não te conheço, mas concordei em tudo o que você escreveu! Cheguei até seu texto via um link no twitter. Eu tinha um perfil no Skoob que não preenchi nem uma segunda vez. Ficou parado lá com as primeiras informações de quando criei o perfil. Como pontuar com estrelas experiências de leituras tão diversas? E porquê eu iria querer me expor tanto sobre o que eu estava lendo? Eu não tenho uma biblioteca particular. Todo livro que leio eu dou ou dôo, dou para quem eu acho que combina com o livro e dôo quando não conheço ninguém que se encaixa naquele perfil. Quando é assim deixo o livro no banco da barca (moro do outro lado da Baía de Guanabara) ou do ônibus. As memórias de cada livro ficam registradas em caderninhos, moleskines, agendas, Instagram e Twitter. Ou ficam gravadas para sempre nos inúmeros compartimentos do meu ser. Não preciso de um classificador em estrelas pra me lembrar delas.

    1. Oi, Suzana! Que legal, eu nem estou no Twitter mais (foi uma das coisas que tb deletei nessa leva), olha que coisa. Obrigada pelo comentário! Acho que essas redes dependem da nossa relação com elas pra funcionarem. Eu tirei proveito de algumas coisas, mas a questao das estrelas chegou num ponto que percebi que afetava minha leitura de uma forma que eu nao gostava. Melhor cortar, essas redes nao sao necessarias, né!
      Abraços!

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