A solidão da vida: “Stoner” | John Williams

Tenho tido sorte com os livros que tenho escolhido nos últimos tempos. Eles parecem chegar em momentos particulares, eu diria que praticamente exatos. Stoner fez muito sucesso há um anos atrás, assim que foi lançado no Brasil, e eu acho que eu também teria gostado muito dele na época – mas agora foi justamente o que eu precisava.

Ando pensando muito. Em uma variedade de coisas, algumas mais e outras menos, mas pensando muito. Isso tem a ver com acontecimentos na minha vida pessoal no último ano, que vieram seguidos de alguns questionamentos sobre vida (e morte), com um turbilhão político que me afeta muito emocionalmente, e ao mesmo tempo em que também procuro desacelerar e refletir mais e mais profundamente. E com isso veio uma certa solidão – que não vou classificar como boa nem ruim, simplesmente solidão, isto de estar só e de pensar sobre coisas que são difíceis de conversar com outros porque são muito íntimas.

E aí veio William Stoner. Este personagem que acompanhamos desde que sai da vida rural e pobre no Missouri do começo do XX, até sua vida e morte na universidade. Ali ele entra como um meio de adquirir conhecimento prático para realizar o trabalho de sempre, mas no meio do caminho se apaixona: pela literatura e pela universidade. Vemos Stoner trocar o curso de agronomia, no qual havia ingressado por desejo do pai para continuar cuidando da fazenda (modestíssima) da família, e passar para a literatura. Ele segue seus estudos e se torna professor do departamento.

Embora muitas pessoas tenham descrito Stoner como um homem médio, de vida média, eu acho que penso mais nele como alguém esquecível e esquecido, assim como a esmagadora maioria de todos nós somos e seremos. Essa mediocridade parece ir revelando momentos ou feitos que, naquele contexto, naquele recorte específico do universo da vida de Stoner, se tornam extraordinários.

Stoner, de John Williams (Rádio Londres)

Existe uma solidão (e a expressão da imagem da capa do livro me pareceu captar isso lindamente) que permeia toda essa vida, uma aparente secura na manifestação das relações. Mas de alguma forma os laços se estabelecem e se mantêm, reforçados de outras maneiras, mesmo que pelo ressentimento. Acho que por isso este livro foi tão pontual quanto ao  meu momento particular, porque me ajudou a pensar a solidão de outras formas. Em um contexto no qual prezamos tanto pela conectividade (ainda que seja marcando nossa presença e felicidade pelo contato expresso em número de amigos/seguidores e curtidas), essa solidão de William Stoner, que em uma passagem linda sai de seu próprio corpo para se ver no silêncio da universidade vazia, trouxe novas possibilidades de entendimento quanto a estar só.

Eu poderia falar de outros aspectos deste livro, como essa relação linda com a universidade (eu mesma estava dizendo hoje o quanto eu amo a universidade, me sinto em casa), ou quanto a fazer as coisas sem esperar o sucesso na forma de reconhecimento ou fama, mas porque é aquilo que se faz e não poderia ser outra coisa. Stoner é um livro muito bonito e um personagem que parece ter ficado no meu corpo em forma de nó na garganta: um sentimento forte de não sei bem o que.


Título: Stoner
Autor: John Williams
Ano de publicação: 2015
Editora: Rádio Londres
314 páginas

3 thoughts on “A solidão da vida: “Stoner” | John Williams

  1. Olá! Gosto muito da forma como você escreve. Já li (ou assisti) muitas resenhas/comentários a respeito deste livro, mas agora realmente fiquei com vontade de ler.

    Cheguei aqui por causa dos podcast 😉

    Abs.

    1. oi, Kelly! Muito obrigada! Espero que você goste de Stoner. Estava meio com pé atrás, mas realmente se trata de um livro muito bonito na sua simplicidade.
      Abraços!

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