A pobreza na terra das oportunidades: “A tree grows in Brooklyn” | Betty Smith

Em uma passagem do livro, a jovem Francie Nolan leva uma bronca da professora: as histórias que ela tem escrito são muito sombrias, têm que ser bonitas. Um bom escritor, a professora de inglês diz, escreve sobre a beleza. Francie cria então uma cena na qual a protagonista, vivendo em luxo esplêndido, desdenha de um jantar que a faz salivar. Ela se desfaz deste texto: o trecho sobre comida abundante denuncia na verdade sobre sua própria fome, e uma boa escritora, Francie afirma, tem que saber mentir bem.


Dentre os comentários que já ouvi sobre A tree grows in Brooklyn (1942), o mais preciso e que está no prefácio de Anna Quindlen é: nada acontece, mas ao mesmo tempo tudo acontece. O livro é baseado na vida da própria autora, Betty Smith, que cresceu no Brooklyn, Nova Iorque, nas primeiras décadas do século XX.

Se hoje nossa ideia de Nova Iorque (qualquer região da cidade que seja) é de algo grandioso, e se os Estados Unidos se apresentam como a terra da oportunidade e da liberdade, o lugar que se vai para ser o que se quiser, para realizar sonhos, enriquecer, vemos neste livro uma outra – e dura – realidade. Os personagens de A tree grows in Brooklyn passam fome, frio, muita humilhação, enganos. O Brooklyn, dominado por imigrantes (da Irlanda, Alemanha, Áustria, Polônia, Itália e outras partes), às vezes parece isolado de tudo, apesar de estar do lado de Manhattan e de ser Nova Iorque, este centro mundial.

A tree grows in Brooklyn, de Betty Smith

O particular desse livro me parece a denúncia incisiva sobre a pobreza como um problema social, como algo que está além do alcance da vontade pessoal do indivíduo, com a autora sempre apontando a desigualdade de condições. Esta ideia de certa forma põe em perspectiva a noção dos Estados Unidos como a terra das oportunidades, o lugar para o qual todas aquelas pessoas que constituíam o Brooklyn migraram para melhorar de vida.

O interessante é que saímos da leitura com algum senso de que sim, é possível melhorar de vida, e que, dadas as circunstâncias do “velho mundo” que os imigrantes deixaram, a América era mesmo essa esperança e possibilidade de uma vida sem amarras sociais. Um lugar para recomeçar, onde os estratos sociais não são definidos por nascimento – muito embora o dinheiro, oportunidade e educação pesem muito, e as oportunidades não sejam o céu que se prometia.Betty Smith (1896-1972)

Me parece que esse equilíbrio muito plausível entre o que é percebido como sofrimento e as boas memórias é o que faz o livro tão contundente. E isso retoma o trecho inicial deste texto, sobre saber mentir bem. No livro Francie entende que o escritor mente, mas eu acho que poderia trocar aqui esta palavra por inventar. Sabe-se que A tree grows in Brooklyn é baseado nas memórias da infância da própria Betty Smith, mas é preciso lembrar que não se trata de um livro de memórias. E mesmo assim os personagens, as relações, os desejos, aspirações, e as dificuldades e renúncias são plausíveis, possíveis – enfim, é crível. É provável, pelo sucesso do livro, que muita gente se identifique com alguma situação. Eu sei que no meu caso foi profundamente tocante, e reconheci algumas pessoas e relações ali. E livros que se enraizam tanto nas próprias experiências costumam garantir um lugar entre os mais íntimos no coração.


Título: A tree grows in Brooklyn
Autora: Betty Smith
Ano de publicação:  1942
Editora: Harper Perennial
493 páginas

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *