Retrospectiva 2016: os melhores livros

Embora eu não acredite muito em recomeços no sentido de um restart, um começar do zero, é inevitável e benéfico parar de vez em quando para refletir sobre um período que vivemos. E assim olho para a paisagem de livros concluídos em 2016. Outro post mais reflexivo ainda virá, mas por enquanto fico com a inevitável lista de melhores leituras do ano. Não defini um número, um top 5 ou top 10. Apenas olhei para os títulos e selecionei aqueles que de fato foram muito contundentes, que foram marcos no ano e na vida, que mais do que bons livros (e estão de fora desta lista vários livros que recomendo muito, de coração), foram para mim fundamentais.

Em ordem de leitura, segue:

24/7 Capitalismo tardio e os fins do sono
Jonathan Crary
Cosac Naify
2015

Um livro pungente, um ensaio prolongado sobre os efeitos profundos do capitalismo. Jonathan Crary abre falando sobre pesquisas realizadas com verba governamental norte-americana que visam reduzir o tempo de sono de humanos. O objetivo, a princípio, é criar um soldado capaz de estar alerta por até uma semana sem dormir, reduzindo o tempo de vulnerabilidade ao eliminar o descanso. A partir daí, Crary discorre sobre o estarmos ocupados, consumindo, o tempo todo, e da redução do nosso tempo de ócio, o tempo da reflexão, da significação da nossa vida e nossos atos. Acredito que esta reflexão, que busca em Benjamin esta preocupação com o ócio, foi um anúncio de muito o que seria minha preocupação em 2016, quando me interessei em ler também sobre a caminhada como momento para a reflexão (Wanderlust, Rebecca Solnit; alguns ensaios da Virginia Woolf; ensaio do próprio Walter Benjamin sobre o flâneur em Baudelaire e a modernidade).

Quarto de despejo: diário de uma favelada
Carolina Maria de Jesus
Ática
1960 (1ª edição)

Sobre este escrevi texto aqui no blog, inclusive relacionando com um capítulo do Comunidade do Bauman. Sigo firme acreditando que este livro deveria ser referência, que na vida escolar este livro deveria ser trabalhado pelo menos uma vez, que se tornasse destes grandes clássicos, destes pilares da formação de cada cidadão brasileiro. O diário de Carolina, com seus desvios à norma gramatical e com tanta poesia, com seu relato encharcado em críticas, com seu olhar atento e denunciador, é desses livros de linguagem acessível porém extremamente profunda ao mesmo tempo. Não poderia haver formato melhor do que o diário para fazer entender de uma vez por todas a expressão “matar um leão por dia”, para entender a vida de luta diária, a fome diária, dor diária – sem perspectivas de mudança.

 

Vozes de Tchernóbil
Svetlana Aleksiévitch
Companhia das Letras
2016
383 p.

Hoje, passado um tempo, fico pensando nesta seleção de relatos postos juntos por Aleksiévitch. Há acusações de propaganda anticomunista, e pode ser que assim seja, mas para mim estas vozes falam sobre mundos e certezas destruídas, sobre o fim de um sistema aparentemente forte, e que deixou tanta gente órfã de identidade. Em determinado momento um homem diz que, perante à queda da URSS, pelo menos eles passaram a ter alguma identidade: homem de Tchernóbil. Para mim, estas vozes que falam sobre uma realidade local dizem muito do mundo, falar sobre aquele contexto de socialismo e sua queda é dizer também do capitalismo. Estas vozes falam sobre militarismo, sobre bipolarização do mundo, sobre ciência e respeito e cuidado com o ambiente, com a natureza. Estas vozes me disseram sobre tentar elaborar, tentar significar o inenarrável. Texto aqui.

O casaco de Marx
Peter Stallybrass
Autêntica
2008 / 2016
112 p.

Três ensaios e uma reflexão sobre nossa relação com o mundo material. Às vezes, ou muitas vezes, achamos que temos uma essência e que esta estaria separada do mundo físico, até do nosso próprio físico. Stallybrass discorre sobre nossa relação com as coisas recorrendo a um arsenal teórico (sendo ele mesmo um acadêmico) ao mesmo tempo em que carrega seu texto de emoção, isso que normalmente deve ser deixado de fora do mundo científico. Um livro que me fez pensar muito sobre nossa existência com os objetos, sobre as marcas que imprimimos no mundo e seus significados. Texto aqui.

 

 

Stoner
John Williams
Rádio Londres
2015
314 páginas

Olha, olha… Que livraço. Tímido, às vezes até seco e frio, este livro não parece muita coisa a princípio. As primeiras palavras já revelam todos os fatos – fatos desinteressantes, comuns demais. E daí sai uma narrativa que parece ser como o próprio personagem William Stoner: calma, paciente e com algo de resistência. Ler sobre uma vida comum parece revelar que nenhuma vida é insignificante, que no ordinário e medíocre encontramos o extraordinário, pequenos grandes feitos e tragédias. Timidamente, Stoner reflete sobre fracasso e solidão de modo sublime. Butcher’s Crossing já entrou na minha lista de leituras para 2017. Texto aqui.

 

 

A tree grows in Brooklyn
Betty Smith
Harper Perennial
1942 (1ª edição)
493 p.

Quando estava lendo, cheguei a dizer que se trataria do “irmão americano de Quarto de despejo“. Talvez esteja mais para primo, é verdade, visto que existem diferenças fundamentais. Mas de qualquer maneira, trata-se de um livro que se apoia na narrativa da vida pobre no Brooklyn da virada do século (início do século XX). Pelo ponto de vista de uma criança que cresce ao longo do livro, acompanhamos a história de uma família, desde que os avós migraram da Áustria e Irlanda para a terra das oportunidades. A tree grows in Brooklyn, eu diria, consegue escapar de definições no estilo “otimista ou pessimista”: há mudanças, há melhoras, mas lentas, que uma vida apenas custa a enxergar. Este livro me tocou profundamente porque me vi, ou vi pessoas próximas, ou vi relações que são minhas retratas ali. Extremamente tocante. Uma pena nunca ter sido traduzido para o português. Texto aqui.

EDIT:

Orgulho e preconceito
Jane Austen
Penguin Clothbound Classics
1813 (1ª edição)

Estava esquecendo justo este clássico! A princípio tinha certeza de que se tratava de uma releitura, mas ao ler tanta coisa me parecia inédita que já não estou certa de que li este livro antes. O que é um indicativo do que é o clássico: esta familiaridade, esta proximidade com a história e seus personagens. E ainda assim, tanta novidade e prazer a cada leitura. Porque Orgulho e preconceito é certamente destes que podem ser relidos à exaustão, sem nunca cair no monótono.

2 thoughts on “Retrospectiva 2016: os melhores livros

    1. Oi, Na! Stoner eu acho que vai crescendo. Nao sei se teria amado tanto se tivesse pego nele apenas pelo hype. Acho que ele veio em um momento muito particular meu e caiu como uma luva. Andava pensando na vida acadêmica, na vida dedicada aos estudos, o que é ser professor, o que é ter uma vida significativa, sobre solidão… E Stoner me ajudou a pensar mais sobre essas coisas. É um livro lindo e sensível, mas de fato eu nao sei se teria amado em outras condições.
      Beijos!

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