Sobre clubes de leitura e a (não) passividade

O clube de leituras Leia Mulheres tem me ensinado muito. Claro, o óbvio é que me fez procurar mais mulheres, de mais contextos, e ampliar meu horizonte no que diz respeito à literatura. Mas há algo que venho notando já há tempos sobre clubes de leitura como um todo: a importância destes espaços para ressaltar a leitura como atividade, como ação.

Já se repetiram várias vezes episódios nos quais temos que explicar às pessoas por email ou comentários na divulgação dos eventos do clube no Facebook que não estamos promovendo palestras. Porque destacamos a escritora no título do evento, não é incomum acharem que a própria estará presente para falar. Já recebemos reclamações quanto à “composição da mesa”, numa referência à mediação (atualmente trocamos por “organizadoras”). Hoje já faz parte da descrição básica de todos os eventos divulgados ressaltar que não há mesa redonda, convidados nem autoras. Pontuamos que se trata de um clube de leitura, mas fiquei surpresa ao perceber que era preciso explicar o que é um clube de leitura.

Quando comecei o blog, depois o canal no Youtube, meu desejo era conversar sobre livros. Entendo que conversa significa ouvir e falar, é um diálogo engajado, no qual as partes estão de fato escutando o que o outro tem a dizer e se pronunciando sobre aquilo. Trocar ideias, pensar junto. Fazer isso na internet era a novidade, permitindo a conexão com pessoas para além do nosso círculo imediato (até porque um grande número de pessoas que conheci pela internet falando sobre leituras relata ter encontrado nas redes sociais o lugar para isso, e que o entorno da “vida real” não dá muito espaço para esse tópico). Mas clubes de leitura, desses de pessoas se encontrarem fisicamente e falarem sobre um livro… Bem, isso já existe há muito tempo.

Estava de certa forma preparada para responder aos questionamentos de por que ler mulheres, mas o profundo problema que não raro aparece quanto à natureza de um clube de leituras é revelador. Tendo a entender disso que as pessoas não saem de casa para atender a um evento que só existe e é possível por causa da participação delas mesmas. Estamos acostumados a ir ouvir alguém falar sobre algo. Quando temos nós mesmos algo a dizer, jogamos na internet (do que pode resultar um diálogo ou não) e pronto. O problema deste formato é que um fala e a reação costuma ser de adesão à ideia ou rechaço da mesma. Não estou dizendo que é só isso que acontece e que as pessoas não pensam sobre aquilo que leem online nas timelines de amigos ou ouvem em palestras. É só que o próprio formato não pressupõe participação.

Ao contrário, o clube de leituras só é possível quando as pessoas reunidas estão dispostas a engajar-se em um diálogo. No que pese eu também ter plena ciência de que há pessoas que não soltam uma palavra durante o encontro e que algumas só querem ser ouvidas, no geral a base desse tipo de evento é que haverá conversa e que esta conversa não tem atores ou papéis definidos. O clube é esta reunião livre de pessoas.

Particularmente eu gosto ainda mais do presencial porque há uma descontração e um olhar nos olhos do seu interlocutor que deixa o debate muito mais amigável. Saímos dessa de “ganhar uma discussão” e estamos ali por uma hora e meia, duas horas, comprometidos com o outro. É um exercício mesmo para isso que tem se mostrado tão difícil, que é esse real diálogo no qual um não convence o outro, mas pensa junto. Meu olhar sobre determinadas leituras já mudou muitas vezes após os encontros, embora isso não signifique que eu tenha simplesmente substituído minha interpretação pela de outra pessoa, mas sim que tenha repensado, reelaborado e criado alguma outra coisa.

Muitas vezes já pediram que lêssemos mais um gênero ou outro, um contexto de autora específico… Com um encontro por mês, podemos apenas tentar. O que tenho feito é reforçar: é preciso ter mais clubes de leituras. Estes são espaços de participação, de reflexão conjunta sobre um texto. Não significa chegar a um consenso, mas abrir espaço para o diálogo embasado, um exercício muito necessário em tempos de intolerância.

One thought on “Sobre clubes de leitura e a (não) passividade

  1. Olivia, estou adorando seus textos! Meu olhar sobre muitos livros também já mudou depois dos nossos encontros. É legal perceber como os livros são lidos e percebidos de formas individuais, né? Obrigada por terem trazido o Leia Mulheres para BH! =)

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