Canalhice ou virtude na história do McDonald’s: “Fome de poder” (2016)

Eu estava no meio de escrever um outro post quando assisti Fome de poder (The founder). Se o filme em si conta uma história de enojar, o que me fez de fato querer escrever e postar sobre não foi a história em si, mas sim os comentários que li a respeito logo após assistir o filme.

Em resumo, Fome de poder (2016) conta a história da criação da franquia de fast food McDonald’s: como um cara, Ray Kroc (Michael Keaton), ambicioso e disposto a tudo, mas sempre fracassando em suas empreitadas, deu de cara com o sistema criado pelos irmãos McDonald e basicamente roubou a ideia e o nome. Mas vejam bem, esta aparentemente é a minha descrição. Eu escolhi colocar ali a palavra roubar, porque foi isso que entendi da história. Também entendi que Ray Kroc era um canalha que mentiu e sacaneou para chegar onde queria. Eu achei que essas fossem conclusões óbvias até ler os comentários das pessoas a respeito do filme.

Para minha extrema surpresa, vários comentários relativizavam ou mesmo exaltavam as atitudes de Kroc, em uma resposta bizarra ao discurso final do filme, no qual Kroc atribui sua fortuna e sucesso à persistência: a persistência e a ambição (outro tema recorrente em diálogos do filme), nestes comentários, são colocadas como virtudes porque possibilitam o sucesso dentro do sistema capitalista (uma pessoa chega a dizer que “escolhemos viver neste sistema” – queria saber que dia me perguntaram isso, se até quando a gente vota e ganha somos ignorados).

Há dois fatos especialmente contundentes no filme e que a meu ver dizem muito deste sistema no qual estamos inseridos. O primeiro é a partir do momento em que Ray Kroc diz não estar mais no negócio da franquia de comida, mas no mercado imobiliário. O modelo de negócios adotado passa, então, por comprar terra. Ora, a propriedade de terras é tema constantemente debatido, visto que há uma concentração cada vez maior de terras nas mãos de poucos. Mais ainda, terras têm sido compradas por empresas, que passam a dominar a paisagem não apenas de seus países de origem, mas também se estendem por cenários estrangeiros. (Não exatamente sobre este assunto, mas passando por ele de maneira importante, recomendo o documentário The true cost – filme interessantíssimo sobre a indústria da moda hoje chamada fast fashion, disponível na Netflix -, que aborda em determinado momento o problema da compra de terras na Índia por parte de multinacionais estrangeiras.) Certamente nos chama a pensar sobre qual é o negócio daqueles que nos alimentam. (Resposta: é dinheiro, independente de onde venha e a custo de quê.)

O segundo fato é a descarada escolha de Ray Kroc por ignorar os termos do contrato firmado entre ele e os irmãos McDonald, conscientemente desobedecendo o estabelecido. Mais ainda, confrontado com a possibilidade de enfrentar um processo judicial, Kroc admite que caso isso aconteça, ele certamente perderá – mas a questão é que os McDonald não terão condições financeiras de levar isso adiante, levando em consideração que Kroc dispunha já de grande poderio naquele momento. Quer dizer, é uma história que escancara que leis e consequências existem para aqueles que não têm dinheiro, reforçando a ideia de que há, sim, pessoas (físicas e jurídicas – jurídicas principalmente) que estão acima da lei.

Me espanta muito que pessoas possam entender de uma história assim que é preciso ser agressivo para sobreviver, e não que há algo errado como o sistema no qual vivemos. Afinal, para que criar leis então? 

Para finalizar, gostaria de indicar pela milésima vez o livro do jornalista Michael Moss, Sal, açúcar, gordura: como a indústria alimentícia nos fisgou (publiquei um texto aqui). Não se trata propriamente do McDonald’s, mas da ideia de comida conveniente e, principalmente, é uma análise muito interessante sobre comida como indústria e negócio.

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