“13 reasons why” + 2 documentários na Netflix | Sobre uma estrutura machista e violenta

Muito tem sido dito nos últimos dias sobre a série que estreou há menos de uma semana na Netflix, 13 reasons why. Os principais assuntos (muito necessários) são o bullying e o suicídio, especialmente este último. Pelo que vejo, de fato falamos pouco sobre suicídio. Mas eu vou falar sobre outra coisa, esse assunto que às vezes eu sinto que “está batido”, que já chega, já sabemos o que precisamos saber… Mas não, não chega, não dá pra parar de falar porque continua aí: a estrutura machista que incentiva e vela a violência simbólica e física.

Se você ainda não chegou no final da série e não gosta de saber absolutamente nada do que virá porque tudo é spoiler (eu), talvez seja melhor parar por aqui.

Uma cena muito impactante e que a meu ver foi feita com extremo cuidado foi aquela em que Hannah Baker decide contar ao conselheiro da escola a violência que sofreu. Digo que foi uma cena bem feita porque fica claro que estamos vendo o embate de duas ideias muito diferentes: uma, Hannah, tentando colocar em narrativa a massa informe da sua experiência que, a depender de como ela a narrará para si, reforçará uns ou outros sentimentos; e do outro lado o conselheiro, preocupado com questões formais, em tentar encaixar esse emaranhado em lacunas pré-elaboradas.

Ele não parece ter más intenções. Ele certamente não tem em seu horizonte de possibilidades o que pode resultar, ainda que parcialmente, de sua fala. É verdade que ninguém quer ter que enfrentar uma situação difícil como aquela: uma aluna que vem sofrendo constante bullying na escola, que acaba de relatar um estupro e que encontra-se muito sensibilizada. É difícil. Mas ninguém quer também lidar com um suicídio – o fim, a morte. E é aí que acredito que a série apresentou um ponto fundamental para as discussões sobre bullying e principalmente sobre machismo, essas duas formas de violência. O conselheiro não é inocente, de forma alguma, mas ele toma parte na reprodução e reforço de um modo de ser da escola que protege uns e joga outros na linha de frente para tomar a saraivada de balas.

A idolatria que instituições escolares norte-americanas nutrem pelos seus esportistas não é novidade. Recebemos aqui todo tipo de séries de tv e filmes estadunidenses que mostram a centralidade do jock (o estereótipo do atleta, centrado apenas nos esportes e em nada mais) e das líderes de torcida. (Líderes de torcida, mulheres, de saia curta, corpos desejáveis, enfim, super sexualizadas e que estão ali para os caras, para incentivá-los.) Mas também têm chegado ultimamente outros relatos acerca das práticas não apenas dos atletas, mas da estrutura escolar/universitária que acaba funcionando como um palco de projeção e um escudo de proteção.

Já falei aqui sobre o documentário The hunting ground, que foca nos casos de alunas (e alunos) estuprados dentro dos campi de grandes universidades norte-americanas. O filme fala largamente especificamente sobre atletas, explorando o lado comercial das instituições de ensino que ganham financeiramente com estes alunos e, assim, os protegem. No post sobre o filme, escrevi:

São de chocar os relatos das sobreviventes (lindo termo, ao invés de vítima), dizendo como foram perguntadas se tinham bebido, quanto tinham bebido, que roupa usavam, ou o que deram a entender pro cara (OI????). São levadas a acreditar que imaginaram tudo, que não aconteceu.

Ao abrir o texto escrito há quase um ano, me surpreendi com a frase que poderia ter sido usada para descrever o diálogo que Hannah tem com seu conselheiro escolar. Então é assim que acontece. Às vezes até com até boas intenções, mas sem qualquer sensibilidade.

A Netflix também lançou recentemente um documentário de produção própria chamado Audrie & Daisy. A Audrie do título tem uma história parecida com a da Hannah – mas um monte de meninas tem história da Hannah. Além de sofrer um ato de violência sexual, Audrie também lida com vazamento de fotos e consequente bullying na escola. Daisy é perseguida pelos habitantes da cidade em que vive, onde o seus violadores são jogadores de futebol americano e astros locais.

As questões postas a essas meninas (meninas!) são sempre as mesmas: você deu a entender que, se veste de maneira provocante, não deveria ter bebido… Existe toda uma estrutura que: 1) faz com que os homens se sintam no direito de fazer qualquer coisa com quem quiserem; 2) objetifica meninas e mulheres, colocando uma enorme pressão em suas aparências físicas; 3) justifica a violência física quando meninas e mulheres se esforçam para fazer parte do considerado desejável e/ou quando escolhe-se não se conformar com os padrões – enfim, praticamente não há saída.

A fala de uma personagem no último episódio é muito reveladora:

Tente ir à escola com um bando de neandertais que ouvem que são a única coisa de valor da escola e que o resto de nós só está lá para torcer por eles e dar a eles o que quer que precisem.

Muito se fala durante a série sobre estar atento, perceber os sinais. Há culpados ou não, até que ponto o suicídio é do âmbito estritamente pessoal. Professores e funcionários da escola, nesse cenário, aparecem pouco durante os treze episódios, e estão ali mais nas situações de discussão das ações legais. O que é fácil deixar passar é como o tempo todo é a organização da escola que reforça hierarquias entre alunos e permite que as violências ocorram o tempo todo. Trazer a escola e outras instituições para o debate não significa amenizar as ações individuais dos envolvidos, mas trata-se, sim, de apontar sua participação enquanto ator fundamental nesta esfera.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *