Nenhum direito é garantido: “O conto da aia” | Margaret Atwood

Muito tem sido dito e escrito sobre O conto da aia, livro da canadense Margaret Atwood publicado em 1985. Muito mesmo, e por dois motivos: a aproximação de uma série da Hulu (serviço nos mesmos moldes da Netflix, mas que ainda não funciona no Brasil) e a política estadunidense atual, especialmente a partir da eleição de Donald Trump para a presidência.

Assim como 1984, de George Orwell, este livro está especialmente em alta por de fato apresentar tantos pontos que, 30 anos depois, persistem (ou se renovam). A obra de Atwood às vezes é lida até mesmo como previsão. Obviamente não o é, e justamente por isso lê-lo e discuti-lo torna-se tão interessante. Embora o livro tenha elementos para iniciar um sem número de discussões, vou me ater a dois aspectos que achei particularmente interessantes, que me fizeram pensar muito: a abordagem de direitos enquanto conquistas a serem renovadas todos os dias e o perigo de vê-los como garantias, e o isolamento nos regimes totalitários.

Em uma narrativa que alterna o presente pós instauração do regime totalitário e o passado análogo ao nosso mundo, vemos as discussões internas da personagem principal, Offred. Em constante embate com sua mãe, uma ativista do feminismo, Offred se lembra de um tempo no qual considerava aquelas lutas absurdas porque desnecessárias. Para que pontuar uma luta da qual já se tirou tudo?

É impressionante o quanto isso ecoa na sociedade de hoje, quando vemos tantas celebridades e pessoas de alcance e influências, tantas mulheres, pedindo por uma retração do feminismo. Porque ele é chato. Porque está sendo pedido demais, além. A discussão em torno de O conto da aia está particularmente forte nos Estados Unidos pelo movimento de retração de conquistas de pautas dos movimentos feministas, notadamente o aborto, sem mencionar a eleição de alguém que foi acusado diversas vezes de assédio. Nenhum direito é assegurado. Como podemos ver hoje não apenas nos EUA, mas também no Brasil: hoje enfrentamos uma investida pesada de setores conservadores com força e representação política que pautam pela restrição ainda maior de aborto mesmo em casos de estupro, além da proposta de penalizar como crime hediondo quem denunciar uma pessoa por estupro e não conseguir provar. Isso para ficar no âmbito do que diz respeito às mulheres.

Atwood nos lembra, acredito eu que com um fio de esperança, que estes movimentos não são lineares: temos avanços e retrocessos, em uma dinâmica de constantes embates. Fico me lembrando de dois livros da Virginia Woolf, Um teto todo seu e Orlando. Ambos traçam uma história da condição da mulher na Inglaterra desde o Renascimento, sendo o século XIX, sob a era vitoriana, extremamente conservador – mais do que períodos anteriores. (Sabemos isso por outras fontes e estudos históricos, mas gosto de pontuar a Virginia Woolf porque ela se posiciona fortemente contra aquela sociedade e porque trata-se de uma figura muito importante que escreve como mulher sobre a mulher naquele contexto.) Mas se nos conforta pensar que tudo muda, é preciso, justamente por isso, estar atenta às movimentações que anunciam um desejo de restringir os direitos de alguns.

Porque são sempre os direitos de alguns que se encontram ameaçados. No que pese isso significar, na prática, que qualquer um está vulnerável, também significa que invariavelmente haverá uns outros que vivem do privilégio – uma característica de regimes não democráticos.

Aliás, sobre os aspectos do regime totalitário, preciso dizer que me tocaram muito. Crescemos no Brasil ouvindo de maneira muito descontínua sobre nossas ditaduras. A ênfase na censura por si só, vazia de significado, sem adentrar nos motivos da dissidência, na fundamentação da crítica e principalmente nas punições – que a Comissão Nacional da Verdade tem tentado divulgar e escancarar – permitem argumentações que permanecem até hoje (e ganham força): reclamar para que, se estava tudo bem? E assim, eu cresci sem entender muito bem o que era uma ditadura, como ela se manifestava no cotidiano, na prática para além das canções de protesto.

contei aqui da minha experiência com o filme Machuca (2003), que foi quando a ficha finalmente caiu pra mim. Entendi finalmente como se trata de um apagamento do outro (literal, como sabemos pelos casos de desaparecimentos e mortes confirmadas – a eliminação do outro), da paranoia e do medo que, em última instância, isolam os indivíduos.

E é isso o que vemos em O conto da aia: o fechamento perante o mundo, cada indivíduo encerrado no medo. Em uma sociedade extremamente regrada, qualquer deslize pode ser uma marcada dissidência, um desafio à ordem. E este regime, para acontecer e se firmar, utiliza justamente da dinâmica de selecionar indivíduos que têm o poder de vigiar e de punir. Se qualquer um pode estar vigiando, tende-se a enrijecer-se e falar o mínimo possível com os outros. Este aspecto de regimes ditatoriais me lembro de ter lido recentemente em outros autores, como José J. Veiga (Sombras de reis barbudos) e Válter Hugo Mãe (A máquina de fazer espanhóis). Para mim este é um dos pontos mais cruéis das ditaduras, porque este medo do outro conduz muito facilmente à desumanização e à falta de empatia. Tendemos a nos tornar indiferentes – e eu também já pontuei em outros textos este meu horror à indiferença.

O conto da aia é interessante como alerta, como um lembrete de que estas forças contrárias a que alguns acreditamos estão sempre à espreita, e que é preciso vigiar. Agora preciso de um livro sobre a resistência. Dicas?

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