Quando gostamos do tema, mas não do livro: “Presos que menstruam” | Nana Queiroz

Acontece às vezes. Gostamos do tema, achamos que ele é importante, ou que a aproximação do autor é original – mas não gostamos do que sai, do resultado final enquanto um produto acabado. Já vi isso várias vezes em documentários, o que de certa forma conversa com a não-ficção, mais especificamente nestes livros reportagem – como é o caso de Presos que menstruam, da jornalista Nana Queiroz.

Sempre acho difícil fazer a crítica nestes casos, porque é preciso tentar organizar ao máximo a fala para não criticar o tópico, o tema, ou mesmo o posicionamento do autor frente à problemática, e sim sua abordagem e construção. Ao mesmo tempo, acredito também ser necessária a crítica, primeiro porque se não gostamos, devemos ser capazes de expressar uma opinião minimamente fundamentada e explicitada, e segundo – e mais importante – porque os tópicos já são objeto de disputa (no caso, a população carcerária e o modo como é tratada), por isso mesmo penso que se torna ainda mais central que a elaboração seja sólida – até mesmo para enfrentar o chumbo grosso que a gente já sabe que vem.

Eu queria ter gostado de Presos que menstruam. Na verdade eu imaginei que iria adorar – e aconteceu o contrário. Para mim foram dois os problemas centrais: o olhar e o texto. É até difícil falar dessa abordagem que a autora escolhe, correndo o risco de “falar mal” da escritora, mas a sensação o tempo todo é de que a Nana Queiroz, com a melhor das intenções na tentativa de denunciar a desumanização das mulheres em prisões, acaba lançando um olhar condescendente às pessoas sobre as quais ela se debruça. Supostamente ela vai às prisões e escuta as mulheres na tentativa de entendê-las, entender o lado apagado e excluído. Neste sentido, entendo que nada mais lógico do que abrir espaço para essas narrativas deixando que as mulheres contem suas próprias histórias. Isto se traduziria em um texto mais direto, menos cheio de floreios (e aqui tenho que dizer, mas são interferências piegas, um mundo de clichês, uma escrita pobre, e o que ficou me parecendo uma tentativa de imitar o estilo estadunidense de relato jornalístico), mais “o que vi e escutei”, nas palavras das presas, do que um sem mundo de inferências realizadas pela própria autora. Esperava algo mais etnográfico, é isso.

Ao destacar suas próprias impressões (o que a gente sabe, obviamente, que é qualquer texto) e abandonar qualquer tipo de rigor, a autora se denuncia: evidencia a fala das presas exagerando nas marcas da oralidade, lembrando aqueles escritores regionalistas do XIX, e que acaba mesmo por diminuir o outro. Ela chega até a destacar em itálico as palavras “erradas” – com qual intenção exatamente? A mão da autora também peca muito na forma como ela decide estruturar o livro, que se baseia principalmente nas histórias individuais de algumas pressas. A escolha é péssima: as histórias são segmentadas, começa com uma, passa para outra e outra, para lá na frente retomar uma narrativa interrompida, e assim até o final do livro. Em termos de efeito, perdemos a conexão com aquela pessoa em particular, perdemos a individualidade, o vínculo, já não se sabe mais quem é quem, perde-se a visão do todo.

Trata-se de um livro com uma agenda clara, que é a de denunciar o que acontece às mulheres presas, assumindo o lado da defesa pelos direitos humanos. Falha, entretanto, em olhar para as presas como pessoas com vontade própria, como sujeitos, que sim, estão dentro de uma estrutura cruel de poder e dominação, mas que, insisto, guardam sua capacidade de agência. O tom de “coitadismo” que foi até apontado por outras pessoas com as quais conversei é bem isso: como poderiam elas agir de outra forma, dado o lugar social de onde vieram e suas histórias de vida? (Nana Queiroz até chega a falar no livro que não se trata disso, mas a sua construção não cumpre com essa visão.)

Admito que deve ser difícil essa tarefa e que trata-se de uma obra bem intencionada – quero dizer, concordo com o posicionamento enquanto denúncia e levantando uma bandeira a favor de um tratamento humanizado da população carcerária em geral, e da necessidade de pensar a especificidade das mulheres. Ao mesmo tempo, penso que devem existir outros trabalhos mais sérios, mais bem escritos, e que mereceriam mais espaço do que Presos que menstruam.

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