As possibilidades do eu: “Um, nenhum e cem mil” | Luigi Pirandello

Outro dia, em um momento de angústia pessoal que não vale a pena ser explorado aqui, resolvi que iria me decompor. Isso resultou em um exercício praticamente matemático: meu nome, traço longo na vertical, lista de palavras que se relacionavam comigo (ou com o que eu penso de mim) de alguma forma. Aí, sem mais nem menos, retirei da estante Um, nenhum e cem mil, do Luigi Pirandello.

Ando relutante em escrever sobre as coisas que tenho lido com receio de que isso vire um diário – o que não é difícil para alguém que faz esse exercício absurdo de decomposição pessoal. Embora todo mundo saiba que a objetividade é um unicórnio dourado e que, portanto, não existe qualquer comentário sobre um livro que não diga também do autor do texto, não dá para viver no outro extremo da subjetividade e ler tudo direcionando para o próprio umbigo. E por isso o Pirandello foi uma espécie de pancada.

A partir de um episódio trivial e ridículo, Vitangelo Moscarda se dá conta de que cada pessoa ao seu redor faz uma ideia diferente dele e que, mais ainda, não é possível ter qualquer controle sobre como se é visto. Existe o que ele pensa de si e existem tantos outros Vitangelos quanto existem pessoas que o conhecem. Ele é cem mil e, ao mesmo tempo, ninguém. Ninguém, porque ao se deparar com essa multiplicidade de eus possíveis, o personagem se perde, se dilui – se questiona a ponto de já não conseguir afirmar nada a respeito de si. Pirandello, contudo, não se contenta com esta condição de extrema incerteza, e faz seu personagem encontrar, por fim, algum terreno sólido para pensar a própria identidade.

É interessante ver como se forma essa identidade. Em primeiro lugar, se trata de admitir que importa o que se deixa ver. Isto é, a identidade não é uma construção puramente psíquica, algo que se dá unicamente na mente do indivíduo, mas tem a ver com os sinais que se eriçam do sujeito. Contudo, isto não significa preocupar-se com como os outros nos percebem: adotar esta postura seria passar a ver o mundo como espelho, quer dizer, buscar sempre ver a si mesmo e, em última instância, tentar capturar-se. E aqui Pirandello se coloca justamente contra esta ideia cartesiana da unidade do sujeito, quando afirma que capturar-se, tentar plasmar uma imagem de si, é a própria morte. “Conhecer-se é morrer.” 

Não se pode viver diante de um espelho. Procure não se ver nunca. Porque, de qualquer modo, jamais conseguirá se conhecer pelos olhos dos outros. Sendo assim, de que vale conhecer-se só para si?

(E aí eu engoli em seco.)

Assim, apesar de partir do desespero de um personagem que se dá aos vários olhares dos outros, Pirandello não se entrega à ideia do indivíduo isolado que encontra sua essência, mas reafirma a identidade como forjada em sociedade. Aliás, é a partir da multiplicidade de eus que Vitangelo, a princípio desesperado, passa a enxergar cada um de seus múltiplos uma possibilidade de si e, desta forma, se expande. Desafixa  sua imagem. Neste sentido, vai de fato contra a noção de uma identidade única e estática. É interessante notar que o personagem criado por Pirandello não é particionado, mas múltiplo. E os múltiplos são as possibilidades.

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