O inevitável texto de fim de ano: como minhas leituras me empurraram para o mundo

Parece inevitável fugir da reflexão sobre o que foi o ano que está acabando. Para efeitos do escopo deste blog, vale fazer este exercício a partir do mundo dos textos que cruzaram meu caminho nos últimos doze meses. E aproveito, então, para deixar em destaque aquelas que considero as leituras mais marcantes do período – o que me salva da criação de uma lista que sempre me parece insuficiente porque solta demais, sem o arraigamento na experiência concreta, algo que particularmente sinto a necessidade de pontuar (o que não significa que eu não goste das listas dos outros. Sou humana, adoro.).

É curioso que olhando para a paisagem de livros lidos o que vejo é um salto bem marcado entre o primeiro e o segundo semestre do ano – o que faz todo o sentido pensando a minha vida no geral. Do início até a metade do ano, ainda que eu tenha passado por leituras excelentes, as escolhas me parecem, vistas da devida distância temporal, um amontoado bagunçado. Não consigo estabelecer ligações nem entre os livros nem deles comigo, a ponto de não conseguir entender porque resolvi ler aqueles livros naquele momento. Acho que a literatura estava no automático. 

Mas também é preciso ser dito que no primeiro semestre li Elena Ferrante. Todo o resto fica pálido perto da série napolitana, porque se trata verdadeiramente de uma história e escrita que sugam a gente como pouca coisa na vida consegue fazer. E de fato o envolvimento é tamanho que eu me via pensando naquele universo, em Nápoles e seus personagens, mesmo quando distante da leitura – andando na rua, dentro do ônibus, tomando banho, cozinhando, conversando com as pessoas e arranjando uma maneira de trazer o assunto Ferrante para o debate, porque eu simplesmente queria falar e pensar e estar o tempo todo na teia de Lenu e Lina. Eu fui sugada para lá. O movimento, depois, foi sugar os livros para mim.

Na segunda parte do ano comecei a ter que enfrentar algumas questões pessoais e, talvez por isso, os livros me tenham tocado de maneira muito mais profunda. Não à toa, penso, eles têm a ver com os meus dilemas no mestrado, na vida acadêmica e com meus desejos e anseios enquanto pessoa que sou e desejo ser. Embora seja necessária a operação, em vários momentos, de separar a vida em esferas (pessoal e profissional, por exemplo), acho que especialmente para quem está fazendo pesquisa nas ciências humanas essas linhas tendem a estar borradas ou mesmo não existirem. Devo estar soando meio mística holística, ou talvez seja só uma questão de pensamento desorganizado mesmo. O ponto é que, de maneira provavelmente muito egoísta, eu parecia estar ligada em uma chave que fez convergir também minhas leituras recreativas para os mesmos tópicos que me moviam em nível extremamente íntimo.

Me veio um desejo de estar no mundo. Quando mudei de casa e me deparei com uma vista mais aberta da cidade (ou o quanto é possível dizer, em Belo Horizonte, de paisagem aberta, dada essa parede que é a serra), minha sensação foi de isolamento. Ao ver a cidade eu me localizei nela, e era como se eu estivesse em uma torre. Não à toa, minhas leituras foram muito para o lado das caminhadas, do vagar. E foi nessa que encontrei uma outra Olivia, a Laing, que em A cidade solitária traz uma reflexão sobre as faltas que sentimos no ambiente urbano. Este livro condensa o que afirmei antes, que nossas vidas não são segmentadas e que cruzamos o que vemos, vivemos e sentimos o tempo todo. Laing parte das vidas e obras de artistas visuais, passando pelas suas próprias experiências pessoais, para tecer um comentário acerca da vida na cidade. O interessante é que, tendo como ponto de apoio as obras e as figuras de artistas como Andy Warhol, David Wojnarowicz, Edward Hopper, dentre outros, Laing conseguiu falar das especificidades da solidão sem deixar de articular o particular com questões mais abrangentes, o que resultou em uma reflexão que de fato pensa sobre a contemporaneidade nas cidades e neste estado de isolamento – que é geral. 

Passados alguns meses desde esta leitura, fico pensando no quanto esta obra tem repercutido, às vezes silenciosamente, em mim. Acredito que foi ela a semente de um movimento que tenho feito de me aproximar das artes em geral. Me despertou uma curiosidade e uma disposição para deter o olhar por mais tempo em coisas que antes eu era muito rápida em dispensar como não sendo a minha praia. Não sei ainda dizer, mas talvez esteja aqui o começo até do meu recente interesse pela poesia. E pensando nisso tudo, me atrevo a dizer que esta, no plano pessoal, pode ter sido a leitura mais importante que fiz neste ano.

Mas também veio Butcher’s Crossing, do John Williams. Aquele do Stoner. Fico na dúvida, inclusive, a respeito de qual dos dois eu prefiro, e isso quer dizer muito. Eu andava lendo muitos textos que vinham na onda dos transcendentalistas. Não cheguei a ler Emerson nem Thoreau, mas me deparava com textos sobre eles o tempo todo. Também li algumas coisas de norte-americanas que não deixam de caminhar na mesma direção, como Mary Oliver, Annie Dillard e mesmo a Rebecca Solnit. Butcher’s Crossing causa um incômodo na perspectiva que estava bem dominante nestas leituras – porque Williams pretende justamente questionar a ideia dos transcendentalistas da possibilidade de um encontro consigo mesmo, de um sentido e significado da vida, um princípio guiador, que seria alcançado pelo contato com a natureza. E para isso coloca um jovem influenciado justamente pelos ideais emersonianos em uma caçada de búfalos no wilderness americano, onde tudo que se tem é o vazio da paisagem, dos dias, a ausência de palavras. Não há sentido, não há bondade inerente do homem: a relação do homem com a natureza é dura e violenta. E o estilo de Williams se presta bem a esta aridez: o texto é seco, direto.

Pensar no tipo de vida que vale a pena ser vivida é tarefa que todo mundo se coloca, mesmo que com um certo temor, porque isso significa encarar a possibilidade de não valer a pena. Williams suplanta essa questão: é isto e é simples. O encontro com a vista cerrada de Belo Horizonte (trocadilho proposital), ao mesmo tempo que me escancarou os limites do que está ao meu alcance imediato, também me pôs de frente para a imensidão de todo o espaço que eu não ocupo, de tudo o que não sou. Meu movimento de expansão, de sair a explorar, foi também informado pela possibilidade de que nada externo vá me conferir significado, mas que eu preciso sair de qualquer jeito. Estar no mundo, ainda que fazendo várias coisas ordinárias.

Neste meio tempo eu comecei a fazer terapia e tomei uma decisão muito importante para minha vida. Simples, mas fundamental – bem na linha dos livros do Williams. Essa decisão foi fruto de uma ânsia que me devora já há algum tempo, desde que me dei conta de que estou virando o que eu mais temia: uma pessoa apática. Em determinado momento eu parei de ver filmes, assistir séries, ler livros – todas essas coisas que eu gosto de fazer para me divertir quando estou sozinha (desde que me mudei todos os objetos de trabalhos manuais ficaram guardados – o que é uma outra questão). Nada me interessava, nada me pegava, nada me dava o arrebatamento que eu queria. 

Em trégua, do Mario Benedetti, eu encontrei um personagem que vivia o mesmo que eu, que também tinha se tornado apático, sem graça – mas só na superfície. Porque se trata de um livro escrito em forma de diário, sabemos que Martín Santomé em realidade não é nada disso, que embora no plano exterior ele demonstre pouca força e se coloque parcamente enquanto sujeito no mundo, ele pensa e tece comentários (engraçadíssimos) sobre tudo ao seu redor. Mas de nada adianta para a vida estar assim, sem fazer. Lembrando do Pirandello, nossas identidades não são construções meramente psíquicas, mas são forjadas também em sociedade a partir dos sinais que deixamos. Martín conhece o amor, ele faz o amor, vive o amor. Ele vive. É a história de alguém que é arrebatado da maneira que eu queria ser, e é um livro que coloca muito a questão de quanto perdura este estado – isto é, a nível mais abstrato, trata-se da questão de o que é a felicidade, o que é uma vida feliz, e mais uma vez, o que é uma vida que vale a pena ser vivida.

Terminei o ano me aventurando. Tenho lido poesia, o que é uma super novidade. Tenho prestado mais atenção à forma. Voltei a estar no mundo: estou escapando dos meus lugares de sempre, estou escrevendo… Estou escrevendo como uma forma de estar no mundo e estou experimentando formas de estar no mundo. Este blog é uma delas.

4 thoughts on “O inevitável texto de fim de ano: como minhas leituras me empurraram para o mundo

  1. Fiquei tão feliz de ver esse texto lindo aqui! Escreva, sim. Escreva sempre! Você escreve tão bem, Oli. E me identifiquei muito com tudo o que você disse aqui. A cidade solitária está na minha lista de leituras por sua causa, e sinto que vou gostar. Preciso dizer que Butcher’s crossing me tocou de uma maneira que eu não esperava; achei um livro lindo demais. (E ando guardando o Stoner para outro momento, ainda não li). Mas A Trégua é um dos livros da minha vida (aquele que eu sempre menciono quando alguém me pergunta “se você fosse um livro, qual livro você seria?”. Fiquei com uma vontade de relê-lo depois desse texto seu. Acho que é um livro que vai me comover sempre. Que bom que ele te encontrou nesse ano, que foi tão difiícil e tão duro pra gente. É o que sempre digo: os livros nos encontram nos momentos certos. Não tenha pressa. Esses momentos de silêncio às vezes fazem parte do percurso para nos encontramos.
    Um beijo grande, querida. E que 2018 seja mais leve e cheio de esperança.

    1. A Trégua foi bem isso pra mim, Pipa. Veio em um momento tão particular, tudo o que estava ali parecia que era meu, sabe? É um desses livros que aparecem raramente na vida. E leia A cidade solitária e me conte o que achou. Eu sinceramente estou até pensando em reler por agora, pra você ter ideia. Acho que devorei demais, queria voltar em algumas coisas… E muito obrigada pelas palavras, Pipa! Vindas de você são mais que especiais.
      Um feliz novo ano pra você também, com muita inspiração para as novas empreitadas! <3

  2. Que jeito bonito, Olívia, de contar sua história em meio a estórias! A Trégua é um dos livros da minha vida – acho que o li por indicação da Pipa, e agora quero reler. Butcher’s Crossing ainda não li, estou guardando para quando vier uma vontade forte de ler. Gostei muito de Stoner, sei que o autor não vai decepcionar. E o livro da Laing também me marcou no ano passado, de um jeito que ainda não sei muito bem descrever. Quero muito relê-lo com mais vagar. 2017 foi um ano duro – para o país, especialmente; o engraçado é que, quanto mais eu me rodeava de livros como uma parede de isolamento, mais eles me empurravam de volta para as pessoas. Não sei explicar, é uma coisa que ainda preciso explorar. E esse seu texto me empurrou um pouco mais a ela. 🙂

    1. Ju, que bom te ler! <3 Espero que você também ame Butcher's Crossing, mas como você disse, o autor não decepciona. Também ando com vontade de reler a Laing, devorei demais. Estou como voce, sentindo ainda o que é que está vindo dessa leitura. Espero que você escreva sobre como os livros têm te jogado para as pessoas, achei tão bonito... =*

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