Esse objeto, o livro

Estou aqui empacotando meus livros e pensando. Eu gosto dos livros físicos. Leio ebooks, mas acho de verdade que os leio de forma diferente: a mesma tela, o mesmo peso, o mesmo objeto o tempo todo… não me imprime (trocadilho inevitável) tanta força. Com o passar do tempo parece ser mais fácil um livro desses se perder na memória, misturado às tantas outras imagens da mesma tela cinza. Com o livro físico há um envolvimento corporal e visual no folhear das páginas, indo e voltando pelo texto, retomando algo que preciso me lembrar ou confirmar e logo voltando ao ponto atual da leitura, subvertendo a tal linearidade; há o carregar daquele volume pra lá e pra cá, sentir o peso, a textura, lembrar dos lugares pelos quais o exemplar passou, a capa parte de cada foto mental; ver o livro ir tomando forma de lido, bordas sujas dos manuseios dos dedos, pontas meio dobradas, a eventual lombada quebrada. Colocar-se no livro, deixar suas marcas.

Todo esse preâmbulo é para dizer que eu gosto dos livros físicos e assim introduzir já a ideia da quantidade deles que hoje habita meus espaços. É óbvio que é mais do que preciso e que eu poderia viver com ebooks se fosse necessário (não é), e embora eu até pudesse falar sobre fazer escolhas mais acertadas (porque sim, pela primeira vez retirei dois livros da estante que comprei e nunca vou ler) ou do número de livros que compro, eu queria dizer mesmo é das edições.

Tenho visto cada vez mais “edições especiais” saindo por aí, que consistem basicamente em um design de capa chamativo, a tal capa dura (qual será a fascinação que temos por esse elemento?), quem sabe uma fitinha de marca-página – e só. Um fenômeno particularmente interessante são as edições de bolso de luxo, uma das invenções mais despropositadas que já vi e uma completa baboseira. O fato é que estou aqui pensando o que de fato levar comigo, e nada disso importa (apesar de eventualmente eu lembrar que paguei mais caro nessas edições e que portanto não deveria me livrar delas tão facilmente – os livros custam). O objeto livro é formado por mais do que apenas esses dados físicos descritíveis, a sua existência em uma coleção quer dizer alguma outra coisa.

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Pela segunda vez em seis meses estou empacotando meus livros. Diferente da primeira mudança, desta vez a preocupação não é apenas carregar os livros de um lugar para o outro e pronto, acomodá-los em uma estante que sabe-se lá quando se moverá. Esta mudança está me levando para a incerteza; o destino não tem nada de fixo e portanto fico pensando nos meus objetos – dos quais os mais numerosos, sem sombra de dúvidas, são os livros. Como tenho tudo o que tenho, porque tenho e o que quero de fato seguir tendo.

Comprar livros é algo relativamente novo pra mim. Me importar com as edições é mais novo ainda. Para alguém que se contentava com o exemplar da biblioteca, remendado o quanto estivesse ou empoeirado que fosse, priorizar a capa dura ou tipo de papel parece fazer pouco sentido. Mas eu comecei a desejar essas edições, e chega o momento de me perguntar o porque disso, exatamente. Claro, todo mundo gosta de coisas belas, de se cercar delas. Só que a edição passou a ter um peso muito maior nas minhas escolhas, suplantando até o fator conforto: estou cheia de livros lindos de capa dura, diagramação maior e agradável, eventuais papel couché ou ilustrações, que tornam o livro um lindo objeto de se ver, embora também possa resultar em algo pouco prático de se ler. Sem contar que uma boa edição não pressupõe a existências desses artifícios rasos: uma boa tradução (quando for o caso), textos de apoio e um projeto gráfico que converse com a obra, por exemplo, são muito mais interessantes que a obviedade da capa bonita, fitinha e outras coisas que vou chamar, para reforçar os argumentos deste texto, de firulas. 

O que são esses livros fortes e robustos? São isso mesmo, fortes e robustos. Enquanto matéria eles têm uma força maior e conseguem manter suas características físicas originais por mais tempo. Enquanto matéria eles têm maior permanência. Mas de que serve essa permanência? Há pessoas que se importam com a constituição de uma biblioteca particular durável porque pensam nela como herança. Os livros que têm que durar para os filhos, outras gerações. Pra mim isso não faz sentido: não faz parte do meu universo de preocupações qualquer geração futura – o que eu faço, eu faço porque quero agora, por um desejo e visão de mundo (não é pelo discurso de “garantir que o planeta siga existindo para os outros” que eu ajo, definitivamente). Mesmo quando é o caso de livros que serão muito manuseados, no final das contas a dureza da edição é mais para preservar as características físicas de “novo” por um tempo maior. 

Mas estou aqui olhando para os meus livros e esses elementos não são suficientes para me manter agarrada a algum exemplar.

Reafirmo que gosto dos livros físicos, de papel. E gosto de coisas belas. Mas o que é um livro que vale a pena ter em minha coleção? Walter Benjamin (em Desempacotando minha biblioteca) diz que o colecionador tem por impulso mais básico o “renovar o mundo velho”: cada item de sua coleção está inserido em uma rede, ganha significado para o colecionador.

O maior fascínio do colecionador é encerrar cada peça num círculo mágico onde ela se fixa quando passa por ela a última excitação – a excitação da compra. Tudo o que é lembrado, pensado, conscientizado, torna-se alicerce, moldura, pedestal, fecho de seus pertences. A época, a região, a arte, o dono anterior – para o verdadeiro colecionador todos esses detalhes se somam para formar uma enciclopédia mágica, cuja quintessência é o destino de seu objeto. 

Não estou querendo aqui discutir sobre “o verdadeiro colecionador” e nem me atribuir este título que soa quase eclesiástico, mas ao contemplar os meus livros percebi que: i) se eu quisesse mesmo levar todos os meus livros comigo, eu poderia, mas tomei a decisão de não fazê-lo; e ii) essa decisão tem a ver com o fato de que, pegando cada livro nas mãos e pensando sobre ele, me dei conta de que há alguns que não fazem sentido para mim, não há qualquer tipo de passado daquele item que eu inscreva no atlas fantástico (para lembrar as palavras da Muriel Pic em As desordens da biblioteca) que é a minha biblioteca. Mesmo quando é um livro bonito. Aliás, às vezes um livro pode até destoar da paisagem que minhas estantes formam.

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Estou aqui empacotando meus livros e pensando o que quero levar comigo. (Que significado assume a frase “os livros que quero levar comigo”! ) De novo estou aqui empacotando meus livros e com a certeza absoluta de que não será a última vez que farei isso, e sinto o peso. E estou me libertando do peso. Já que posso escolher, já que me coloquei na posição de escolher, quero levar só os livros-possibilidades.

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