Montagem (como seu eu fosse Marília Garcia)

Montagem

No dia 17 de junho de 2017 me mudei
para este apartamento
com minha mãe e meu irmão

Desde o dia 17 de junho tem
uma caixa embaixo da escrivaninha
uma caixa aos pés da cama
uma caixa no quartinho da bagunça
                (o quartinho da bagunça foi o primeiro a se organizar)
e um quadro do John Lennon no chão

O que todo mundo gosta neste apartamento
é a vista
A vista é
muito                   longe
aberta                  tudo                      a serra
a serra-parede
a serra-muro
da vista encerrada
Esta vista me mostra
onde eu                                                              não estou
e não mostra com quem eu                       não estou

Eu achei que este apartamento fosse            diferente            do antigo apartamento
que nossos móveis não fossem caber como cabiam no outro
mas minha mãe disse que não                 e é verdade
coube tudo

Agora é janeiro de 2018
e tem 17 caixas no meu quarto
Primeiro pensei em levar tudo comigo
mas me falaram que já que não sei como tudo vai ser
melhor deixar algumas coisas para trás
Eu nunca tinha pensado que era possível
deixar algumas coisas para trás
não levar tudo comigo
escolher o que levar comigo
                (Deixar para trás não é o mesmo que apagar)

No ano passado li duas autoras que dizem coisas muito parecidas
a Joan Didion e a Rosa Montero falam
da necessidade que temos de nos narrar
para viver
nos inventamos na escrita
                estar onde eu                   não estou
                com quem eu                   não estou
                ser o que                            não estou           sendo
As duas escreveram a partir do luto

(Outro ponto para começar este poema:)
Um dia um monte de gente me disse
que eu tinha ganhado uma segunda vida
era sinal para eu viver diferente
eu disse que só sabia viver como eu vivo

Acho que me falta imaginação
para ser outra coisa
não sou criativa
para ser outra coisa
até no meu diário eu escrevo a verdade
por isso mesmo sou ótima mentirosa
de tanto acreditar

No filme F for fake
o Orson Welles diz que vamos ver um documentário sobre um falsificador de arte
o Elmyr de Hory
o Orson Welles avisa que durante uma hora vai falar mentiras
ele caminha por várias narrativas
– durante uma hora e meia –
e faz vários cortes
e no final das contas
a gente vê um documentário que
justamente
ignora e tematiza o verídico
pela          montagem

O Alejandro Zambra disse em uma entrevista
que o que aproxima literatura e cinema
é a          montagem
na           montagem
está o jogo
na           montagem
a mentira

Eu acho que a história da minha mudança
começa no dia 17 de junho         mas isso é porque eu sou ateia
quem acredita em deus diz que eu estou na segunda chance que começou no dia 14 de novembro de 2015
quem acredita em espírito acha que começa antes das minhas lembranças
quem acredita em signo eu não acompanho
mas já que eu comecei a escrever quando estava encaixotando meus livros
resolvi que esta era uma história de caixas
e desde o dia 17 de junho
quando me mudei para este apartamento com minha mãe e meu irmão
tem uma caixa embaixo da escrivaninha
que me atrapalha a sentar direito

No filme Synédoche, New York o personagem
do Phillip Seymour Hoffman quer fazer uma peça de teatro
sobre sua própria vida
o Phillip Seymour Hoffman quer encenar tudo o que acontece
a ponto de os atores da peça o seguirem
repetindo o que ele faz quase imediatamente
até ser uma peça impossível

Quando me mudei para este apartamento
eu mesma empacotei poucas coisas
minha mãe contratou desses serviços de mudança que      fazem tudo
você sai de casa um dia e eles                  fazem tudo
Eles empacotam              tudo              e a gente não precisa fazer quase
nada

Meu amigo Pedro Lüscher disse que a melhor parte da mudança é jogar umas coisas fora
o Pedro Lüscher já fez umas quatro mudanças desde que eu conheço ele
eu acho o Pedro Lüscher um expert em mudanças
o Pedro Lüscher também gosta da parte de pensar o novo espaço (mas é que ele gosta muito de arquitetura também)
A minha mãe contratou um desses serviços de mudança e a gente não precisou fazer quase
nada
aqui coube         tudo

Quando comecei a escrever eu estava
empacotando meus livros
eu sempre começo empacotando meus livros
eu fiquei um mês empacotando meus livros
até saber que eu nunca levei tudo comigo
eu não tinha entendido que querer
estar lá onde                     não estou
e com quem                      não estou
é deixar algumas coisas para trás
                (Deixar para trás não é o mesmo que apagar)

***

Este foi um exercício para uma oficina de escrita não-criativa, ministrada pela escritora Flávia Péret no Estratégias Narrativas (em BH). A ideia era fazer algo como os poemas ao vivo da Marília Garcia, que lemos em Um teste de resistores. Resolvi publicar aqui porque este poema começou da mesma atividade de empacotar meus livros, sobre a qual falei no texto anterior (um texto que também tem algumas estratégias da Marília, que talvez sejam coisas que eu gosto mesmo, como a repetição e o corte).

Esta é uma tentativa.

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